A Polícia Federal afirma que a lobista Roberta Luchsinger movimentava quantias expressivas em dinheiro em espécie e que parte desses valores foi usada em despesas ligadas a Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A informação consta de documento que fundamentou a abertura de um inquérito sobre suspeita de tráfico de influência, sob relatoria do ministro André Mendonça, no Supremo Tribunal Federal.
Segundo o relatório, em 25 de junho de 2025 o motorista da lobista, Ulisses Barbosa Viana Júnior, realizou duas coletas em espécie com um terceiro não identificado, nos valores de R$ 100 mil e R$ 200 mil. Em mensagens transcritas pelos investigadores, o motorista diz que o dinheiro estava em pacotes lacrados e ainda não havia sido contado, e cita os montantes como cem mais duzentos. A lobista, na sequência, orienta que R$ 50 mil sejam depositados na conta de sua consultoria e outros R$ 50 mil na conta de uma agência de viagens. No mesmo dia, essa agência emitiu passagens de Brasília ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo, no valor de R$ 2.000, para Roberta Luchsinger e para Fábio Luís.
Outro trecho citado pela Polícia Federal é uma conversa de agosto de 2025, em que a lobista reclama do custo das passagens e afirma que já gastava R$ 100 mil por mês com uma casa usada por Fábio Luís. O mesmo documento registra ainda o pagamento de R$ 217 mil em faturas de cartão de crédito, financiamento de veículo e outras despesas de Marco Aurélio Ribeiro, ex-chefe de gabinete do presidente, em 2024, período em que, de acordo com a investigação, a lobista buscava contratos ligados à Cannabis medicinal junto ao Ministério da Saúde. A defesa de Ribeiro afirma que os valores se referem a um empréstimo pessoal e nega ter encaminhado documentos sobre compras ou licitações.
A cobertura de centro relatou o caso a partir do conteúdo do documento, reproduzindo os diálogos e detalhando a suspeita de sociedade oculta entre Fábio Luís, a lobista e o empresário Fernando Bittar em negócios de Cannabis medicinal que não avançaram no Ministério da Saúde. Veículos de direita deram destaque ao volume de dinheiro em espécie e ao vínculo pessoal entre a lobista e o filho do presidente, tratando o episódio como novo capítulo de um escândalo que alcança o entorno familiar do Planalto, embora tenham registrado que o documento, por si só, não estabelece origem ilícita dos valores. Veículos de esquerda não cobriram este recorte específico no conjunto de fontes reunidas: a leitura crítica ao vazamento aparece apenas pela voz das defesas.
As defesas negam irregularidade. O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que representa Fábio Luís, afirma que setores da Polícia Federal instrumentalizados por interesses político-eleitorais tentam interferir nas eleições de 2026, que não há prova nos autos de que aquele dinheiro pagou as passagens e que seu cliente morava em Madri, na Espanha, no período. Ele compara os vazamentos ao que ocorreu na Operação Lava Jato e diz esperar a nulidade do processo. A defesa de Roberta Luchsinger informou que não comentaria conversas retiradas de relatório sob sigilo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou em entrevista à televisão, no domingo, que qualquer pessoa suspeita deve ser investigada, inclusive de sua própria família, e que o filho será julgado, punido ou inocentado.
Pontos centrais seguem em aberto. Não se sabe a origem dos R$ 300 mil em espécie nem quem entregou o dinheiro ao motorista, já que a investigação descreve o repasse como feito por terceiro desconhecido. Também não há definição sobre a qual imóvel a lobista se referia na conversa de agosto de 2025, nem decisão do Supremo Tribunal Federal que confirme ou afaste a prática de tráfico de influência ou de corrupção. O inquérito continua em andamento e não há prazo divulgado para sua conclusão.