Até o momento, apenas o veículo Veja cobriu o assunto, relatando que uma pesquisa do instituto Gallup revela um salto no uso de canetas emagrecedoras nos Estados Unidos: 11% dos adultos americanos afirmam usar atualmente um medicamento à base de GLP-1 para redução de peso, ante 3% em 2024. O movimento coincide com a queda da taxa de obesidade no país, de 39,9% em 2022 para 36,4% em 2026, embora a reportagem ressalve que não é possível cravar a relação de causa e efeito entre os dois números.
A matéria explica por que o mesmo fenômeno dificilmente se repetirá no Brasil na mesma escala, e atribui a diferença a fatores econômicos, não biológicos ou culturais. No país, uma caneta de Ozempic ou Wegovy custa entre R$ 1.077 e R$ 1.400 nas doses mais usadas, podendo ultrapassar R$ 2.600 nas doses mais altas, valores que comprometeriam mais de 100% do salário mínimo de R$ 1.621 vigente em 2026 caso um trabalhador tivesse de bancar o tratamento sozinho, sem contar consultas e exames. Nos Estados Unidos, o preço de tabela do Wegovy também é alto, cerca de US$ 1.349 por mês, mas ali existe um ecossistema de mitigação: cartões de desconto do próprio fabricante que reduzem o valor para US$ 149 a US$ 349, planos de saúde que cobrem parte do custo e um novo programa federal do Medicare que, desde julho deste ano, oferece o medicamento por US$ 50 a idosos elegíveis. A Novo Nordisk já anunciou ainda um corte de até 50% no preço de tabela a partir de 2027.
No Brasil, esse colchão não existe. Não há plano de saúde que cubra amplamente terapias para emagrecimento, e o SUS nunca ofereceu a semaglutida gratuitamente para esse fim: desde 2019, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) já rejeitou cinco pedidos de incorporação de medicamentos para obesidade, a mais recente delas em agosto de 2025, sempre citando o alto custo projetado frente ao teto de R$ 300 mil por ano de vida ajustado à qualidade usado como régua pela comissão. A liraglutida, por exemplo, teve projeção de custo entre R$ 8,1 bilhões e R$ 22,6 bilhões e foi recusada. Em maio deste ano, a Anvisa aprovou o Ozivy, primeiro similar nacional da semaglutida, vendido a partir de R$ 498, mas, por enquanto, apenas para diabetes tipo 2, não para obesidade, o que limita seu impacto sobre o problema de acesso.
A reportagem também levanta um questionamento editorial: se o cálculo de custo-benefício de longo prazo, que poderia justificar o investimento público ao evitar infartos, AVCs, diabetes e internações futuras, está sendo ofuscado pelo horizonte de curto prazo dos mandatos políticos. O texto sugere que o resultado prático é um Brasil dividido em dois grupos, um pequeno grupo que paga do próprio bolso e tem acesso equivalente ou até mais barato que o americano médio, e uma maioria sem cobertura pública nem privada que simplesmente fica de fora.
O que ainda não se sabe é se o governo federal pretende reabrir a avaliação da Conitec em um novo ciclo, se o Ozivy chegará a ser aprovado para o tratamento da obesidade, e que evidências concretas sustentariam a economia de longo prazo alegada, já que a reportagem não cita estudo brasileiro específico sobre o tema.