Temas de política externa, que até pouco tempo mal registravam no debate público brasileiro, ganharam peso repentino na América Latina. Até o momento, apenas um veículo cobriu o tema nesta análise, uma coluna que relata como lideranças de estilo inflamado — Donald Trump, Lula da Silva e Javier Milei — passaram a mobilizar sentimentos nacionalistas e a trazer a geopolítica para o centro da conversa cotidiana.
O ponto de partida é concreto. Quando Trump elevou as tarifas sobre as exportações brasileiras, mesmo cidadãos distantes de expressões como soberania ou imperialismo perceberam que produtores do país saíam prejudicados. A partir daí, segundo o relato, o governo Lula captou rapidamente o potencial eleitoral de defender a autonomia nacional e de propor 'dar uma lição nos gringos'. Do outro lado, Milei explora o atrito ao criticar líderes locais e ao buscar se firmar como o principal interlocutor da direita de Trump na região.
No pano de fundo está uma disputa de influência entre Estados Unidos e China. Depois de anos em que Washington, nas palavras da coluna, 'dormiu no ponto' e relevou o avanço chinês no que considerava seu quintal, o Departamento de Estado teria despertado. A resposta seria uma frente informalmente chamada 'Escudo das Américas' e formalmente batizada de Coalizão Anticartéis das Américas — teoricamente voltada ao combate ao narcotráfico, mas com escopo mais amplo. Integram o bloco Argentina, Bolívia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Trinidad e Tobago e os próprios Estados Unidos, com possível adesão de Colômbia e Peru. O governo brasileiro fica de fora e recusa até a qualificação dos cartéis como organizações terroristas.
A análise atribui ao comentarista argentino Carlo Pagni, em texto no La Nación, a tese de que o jogo é ainda mais amplo: haveria uma articulação para converter Milei em agente de uma política favorável a Trump na América Latina, uma releitura da doutrina Monroe apelidada de 'doutrina Donroe'. Nesse enredo, o resultado da eleição brasileira de outubro é descrito como decisivo — e a recepção de Flávio Bolsonaro no Salão Oval seria sinal da aposta americana em mudança de orientação no Brasil. A própria China teria divulgado nota de apoio ao governo brasileiro, ilustrando o peso da disputa.
Como se trata de cobertura de fonte única, com enquadramento à direita, o texto trata o apelo de Lula à soberania sobretudo como recurso de marketing eleitoral e dá voz predominante ao campo pró-Trump. Uma leitura de esquerda tenderia a ler o tarifaço e a coalizão como ofensiva contra a autonomia dos países latino-americanos, e a defesa da soberania como resposta legítima à interferência externa. Uma leitura de direita reforçaria a frente anticartéis como reação necessária ao avanço chinês e questionaria a recusa brasileira em somar-se ao bloco.
O que ainda não se sabe é se os ataques de Milei a Lula ajudam ou prejudicam o presidente brasileiro num país zeloso de sua autonomia, qual será o teor do novo documento americano mencionado e, sobretudo, como a eleição de outubro reordenará o alinhamento do Brasil nessa disputa entre Washington e Pequim.