O candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou na segunda-feira, 27 de julho, que o Brasil deve virar a página da crise diplomática aberta com a Argentina após as ofensas do presidente argentino, Javier Milei, feitas em território brasileiro. A fala ocorreu durante agenda em São Paulo, num encontro com entregadores de aplicativo, quando Haddad foi questionado sobre a entrevista em que Milei disse não pretender pedir desculpas e acusou o governo brasileiro de promover uma campanha contra a Argentina.
O episódio que abriu o desgaste ocorreu no sábado, 25, durante a convenção nacional do PL que oficializou o senador Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República. No evento, Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de presidiário e se referiu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como lixo careca. No dia seguinte, em entrevista a uma rádio argentina, o presidente argentino ampliou o ataque e afirmou que o governo brasileiro teria financiado uma campanha contra a Argentina durante as eleições argentinas de 2023.
Haddad classificou a atitude como deselegância e disse que ela não compactua com séculos de tradição de amizade entre os dois povos. Ao mesmo tempo, sustentou que a cordialidade será restabelecida e que a divergência ideológica não pode contaminar a cooperação bilateral. Citou o Mercosul como prova de um momento auspicioso, ao lembrar o acordo com a União Europeia, o entendimento com Singapura e a possibilidade de negociação com a China. Também defendeu a reação brasileira ao dizer que o país tem todo o direito de manifestar contrariedade com o comportamento impróprio de um chefe de Estado em território nacional, e falou em dignificar o povo brasileiro.
A cobertura de centro relatou o caso de forma descritiva, organizada em torno das citações do ex-ministro e do contraste entre a gravidade das ofensas e o apelo à retomada da normalidade diplomática. Veículos de direita enfatizaram outro ângulo: enquadraram a declaração como gesto de quem minimiza a crise, deram espaço próprio à acusação do presidente argentino sobre a suposta campanha contra o país vizinho, acrescentaram a resposta irônica de Lula a jornalistas, que ao ser perguntado sobre o argentino devolveu a pergunta sobre quem seria aquele interlocutor, e registraram que o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília e chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas, informação ausente da cobertura de centro. Veículos de esquerda não estão entre as fontes que cobriram esta fala até o momento, e o ângulo que costuma organizar esse campo, a defesa da soberania e da autoridade das instituições brasileiras diante de ofensa vinda de fora, aparece nas próprias declarações do candidato sobre a autoestima do povo brasileiro.
A divergência de cobertura está menos nos fatos e mais no que cada lado põe em primeiro plano. De um lado, o apelo à cordialidade e a continuidade das negociações comerciais do bloco regional. De outro, a leitura de que a resposta do campo governista foi branda ou irônica demais, somada ao destaque para a acusação política feita pelo presidente argentino, apresentada sem que nenhuma das reportagens traga evidência que a sustente ou a refute.
Permanece indefinido se haverá qualquer retratação argentina, já que Milei declarou não pretender pedir desculpas, quais medidas o Itamaraty adotará depois da convocação dos embaixadores e se o atrito terá efeito prático sobre as negociações comerciais do Mercosul, inclusive a eventual abertura de conversas com a China. Também não há, nas reportagens, manifestação oficial do governo argentino sobre a convocação dos embaixadores.