O governo federal escolheu o Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Macaíba, para abrigar o novo supercomputador brasileiro de inteligência artificial. O investimento supera R$ 1 bilhão e sai do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. A máquina terá capacidade de 7.200 petaflops, o equivalente a 7,2 quintilhões de operações por segundo, e entraria no grupo dos dez equipamentos mais potentes do mundo na área. A previsão é de entrada em operação no fim de 2027.
A execução ficará sob responsabilidade do Laboratório Nacional de Computação Científica. O equipamento será usado por universidades, empresas, institutos de pesquisa e órgãos públicos para treinar modelos de inteligência artificial, desenvolver aplicações e rodar pesquisas em áreas como saúde, energia, clima, petróleo e gás. A iniciativa integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028.
Os pontos factuais em que a cobertura converge são poucos e claros: o valor, a fonte do recurso, a capacidade da máquina, o executor e o prazo. Também há convergência sobre o papel da universidade pública como local de instalação e sobre as contrapartidas escritas no edital, que exige transferência de tecnologia, formação de profissionais brasileiros, desenvolvimento conjunto de software e parcerias com instituições de pesquisa.
Veículos de direita foram os que trataram a decisão de infraestrutura, e o fizeram em tom factual, sem questionar o volume de dinheiro público comprometido. A ênfase recaiu sobre o efeito econômico do equipamento: demanda por profissionais qualificados, serviços especializados de operação, redes, armazenamento e segurança, atração de empresas e formação de um ecossistema tecnológico ao redor da máquina. A escolha do Rio Grande do Norte aparece ancorada no potencial de geração de energia eólica do estado, um critério de custo operacional, e na estratégia de descentralizar a infraestrutura científica de alta capacidade, hoje concentrada no Sul e no Sudeste.
A cobertura de centro relatou o outro lado do mesmo movimento, o do capital humano. O professor Anderson Soares, da Universidade Federal de Goiás, natural de Catalão, recebeu nota máxima em afinidade, influência e reputação no segmento de inteligência artificial no levantamento Pulso 2026/2027, produzido pelas empresas Deck e Nexus, do grupo FSB Holding. O estudo analisou mais de 2 mil perfis e chegou a uma seleção final de 630 nomes distribuídos em 21 setores da economia, com coleta feita em junho de 2026. Os responsáveis ressalvam que não se trata de ranking e que os nomes aparecem em ordem alfabética, ressalva que contrasta com o superlativo do título. Soares presidiu a comissão que criou o bacharelado em inteligência artificial da UFG, em 2019, e fundou o Centro de Excelência em Inteligência Artificial, que atende sobretudo empresas do Sudeste.
Veículos de esquerda não produziram cobertura própria sobre o tema. A leitura desse campo tende a enfatizar o que os dois textos deixam implícito: o avanço brasileiro em inteligência artificial está sendo construído dentro de universidades federais, com dinheiro público e com regra de contrapartida tecnológica, e a instalação no Nordeste corrige uma desigualdade regional de décadas na distribuição de infraestrutura científica.
A divergência de fundo é sobre para que serve a máquina. De um lado, o argumento de soberania: rodar no país parte do processamento hoje comprado no exterior, manter dados estratégicos e conhecimento técnico sob governança brasileira, reduzir dependência estrutural de infraestrutura estrangeira. De outro, o argumento de eficiência: capacidade instalada só se justifica se for usada por quem produz, e a própria fonte oficial admite que processadores e aceleradores continuarão sendo estrangeiros no curto prazo, com o domínio nacional restrito a software, operação e conhecimento.
O que ainda não se sabe é boa parte do essencial. Não há informação pública sobre quem fornecerá o hardware, em que estágio está a licitação, quanto custará a operação anual do equipamento, incluindo energia, nem que regras vão definir a fila de acesso entre pesquisadores, empresas e órgãos públicos. Também não está claro se o cronograma de 2027 será cumprido, nem se os R$ 23 bilhões previstos até 2028 têm orçamento assegurado ano a ano.