O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou à semana que antecede o início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão pressionado pela própria campanha a mudar o tom sobre as investigações da Polícia Federal que envolvem seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Coordenadores petistas querem que o presidente afirme, com todas as letras, que nenhum pai pode ser responsabilizado por atos de filhos maiores de idade. Lula resiste, sob o argumento de que não pode parecer que já condenou o primogênito, e o impasse trava a definição do discurso da campanha.
A cobertura de centro relatou que assessores do Palácio do Planalto orientam o presidente a separar publicamente as duas situações, expondo os indícios contra o ex-chefe de gabinete como mais graves do que os levantados até agora contra o filho, apesar de ambos aparecerem vinculados à lobista Roberta Luchsinger. O cálculo descrito é eleitoral: a avaliação interna é de que o eleitor tende a ser mais severo com irregularidades que envolvem laços familiares em um eventual caso de tráfico de influência. Essa mesma cobertura registrou que a Polícia Federal ainda não localizou contrato assinado nem vantagem concedida pelo governo federal a clientes da lobista, e reproduziu a declaração dada por Lula no domingo, dia 23, de que o filho será julgado e punido se tiver cometido erro.
Veículos de direita enfatizaram o custo político acumulado. Nessa leitura, o episódio alcança a antessala presidencial: o ex-chefe de gabinete, cientista político, controlava a agenda de compromissos do presidente e participava de reuniões de governo. A Polícia Federal apontou pagamentos e a compra de duas joias pela lobista ao ex-assessor, além de um pedido de quadro avaliado em 100 mil euros. Ele afirma que as transferências eram empréstimo, quitado com um depósito de R$ 249 mil. O filho do presidente responde a três inquéritos e se tornou o centro de uma queda de braço entre a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal. A mesma cobertura destacou que pesquisas qualitativas e monitoramentos de redes encomendados pelo próprio partido apontam desgaste crescente da imagem presidencial, que a rejeição está na casa de 50% em quase todas as pesquisas e que projeções de segundo turno indicam vantagem do campo adversário.
Veículos de esquerda não apareceram neste conjunto de matérias, o que deixa sem contraponto editorial próprio a leitura de blindagem eleitoral. Os elementos que sustentariam essa contraposição, porém, estão nos próprios textos: nenhum dos investigados foi denunciado, a apuração não localizou contrato ou benefício concedido pelo governo, e o Tribunal Superior Eleitoral já determinou a remoção de publicações que exploram a coincidência de apelido entre o ex-chefe de gabinete e o líder do Primeiro Comando da Capital, Marcos Willians Herbas Camacho.
Os dois lados que cobriram o caso convergem em três pontos. O primeiro é a avaliação, feita dentro do próprio governo, de que as acusações contra o ex-assessor são mais graves do que as apresentadas até aqui contra o filho do presidente. O segundo é a mudança de postura de Lula, que em 5 de agosto ainda defendia o ex-auxiliar com a pergunta sobre quem nunca pediu empréstimo a um amigo e agora se diz decepcionado. O terceiro é o calendário: a aposta da campanha é uma entrevista marcada para quinta-feira, 27, véspera do início da propaganda eleitoral. Enquanto isso, o partido do presidente cobra explicações do senador Flávio Bolsonaro pelo pedido de US$ 24 milhões a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que fez repasses de R$ 61 milhões destinados, segundo o senador, a um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro que não saiu do papel.
O que ainda não se sabe é se e quando o filho do presidente prestará depoimento, se a Procuradoria-Geral da República apresentará denúncia, e qual é o conteúdo concreto dos indícios que sustentam a avaliação de maior gravidade contra o ex-chefe de gabinete. Também não há resposta pública das defesas dos investigados aos pontos levantados pela apuração, nem definição sobre o tom que o presidente adotará na entrevista marcada.