O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) consolidou os dados das candidaturas registradas para as eleições gerais de 2026 e o retrato que saiu da base é o de um grupo pouco parecido com o eleitorado que pretende representar. O prazo de registro terminou na noite de 15 de agosto, e a base reúne cerca de 20,6 mil pedidos. O candidato predominante é homem, branco, casado, tem entre 40 e 59 anos e concluiu o ensino superior. Homens são 65% dos inscritos, e mulheres, 35%. Nas declarações de cor e raça, 48,68% se declaram brancos, 36,2% pardos, 13,6% pretos e 0,9% indígenas. O ensino superior completo aparece em 58,5% dos registros, proporção muito acima da média da população brasileira. Entre as ocupações, empresários somam 12,5% e advogados, 8,2%, seguidos por deputados e vereadores que já exercem mandato.
O mesmo padrão se repete no maior colégio eleitoral do país. Em São Paulo são 2.549 candidatos para mais de 34 milhões de eleitores, dos quais 66,9% são homens e 68% se declaram brancos, participação que cresceu em relação a 2022, enquanto a de candidatos pretos caiu de 13,1% para 11,4%. Nos estados, a disputa já está montada: o Pará tem cinco chapas ao governo e 6,2 milhões de eleitores, e no Amapá os candidatos cumpriram nesta semana o quinto dia oficial de campanha, com caminhadas, panfletagem e gravações para as redes sociais. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro e o segundo, para 25 de outubro.
Os três blocos de cobertura partem da mesma base oficial e não divergem sobre os números. Também convergem em três achados. O uso do nome social por candidatos trans e travestis chegou a 54 registros, alta de 45% em relação a 2022, sendo 53 deles para o Legislativo. Mais de um terço dos candidatos, 6.933 registros ou 33,64% do total, declarou não possuir bens. E um cruzamento entre a base de candidaturas e o Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), encontrou nove candidatos com mandados de prisão em aberto, todos civis, decorrentes de dívidas de pensão alimentícia que somam R$ 95.221,88.
A diferença está no que cada lado escolheu iluminar. Veículos de esquerda deram destaque ao avanço das candidaturas trans e travestis e ao significado do nome social como reconhecimento de identidade, tratando a sub-representação de mulheres, pretos, pardos e indígenas como problema estrutural dos partidos, e não como acaso estatístico. A cobertura de centro manteve o tom descritivo, detalhou os recortes por estado, faixa etária, escolaridade e ocupação e investiu em checagem documental, apurando a situação judicial dos registros e ouvindo especialistas em direito eleitoral. Veículos de direita concentraram a atenção no patrimônio declarado e na transparência das informações prestadas à Justiça Eleitoral, com foco nos candidatos sem bens e no que a declaração permite ao eleitor fiscalizar por conta própria, e trataram a disputa por atenção nas redes, incluindo as coreografias de campanha, como técnica de marketing cujo efeito sobre o voto não está demonstrado.
Sobre o efeito jurídico dos mandados, os especialistas ouvidos afirmam que a mera existência da ordem não gera inelegibilidade nem impede o registro, que só cai diante de condenação transitada em julgado ou proferida por órgão colegiado nos crimes previstos na Lei da Ficha Limpa. A prisão civil por pensão é medida de coerção para forçar o pagamento, e não pena criminal. Ainda assim, os candidatos nessa situação podem ser presos se forem localizados.
O que segue em aberto é relevante. O TSE não respondeu se os mandados podem interferir na análise dos registros, e parte dos pedidos de candidatura ainda aguarda julgamento, o que pode alterar os números a qualquer momento. Não há, até aqui, dado público que ligue engajamento em vídeo curto a intenção de voto, nem explicação das legendas para a queda na participação de candidatos pretos em São Paulo.