
Site argentino ligado a Fernando Cerimedo forja crise migratória em Santa Catarina
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Contas argentinas ligadas ao consultor Fernando Cerimedo e a influenciadores próximos do presidente Javier Milei impulsionaram entre 21 e 27 de agosto de 2026 uma campanha sobre uma suposta invasão de imigrantes marroquinos em Santa Catarina atribuída a políticas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O levantamento do Observatório Lupa identificou a origem no portal La Derecha Diario e mapeou 13,4 mil menções, com publicações que chegaram a 475 mil visualizações. Dados do ObMigra e do Conare mostram que marroquinos responderam por 57 dos 3.059 pedidos de refúgio no estado em 2026 até julho, ou 1,86% do total, muito atrás de cubanos, haitianos e venezuelanos.
Esquerda
Uma operação de influência montada fora do país transformou 57 pedidos de refúgio em uma falsa crise migratória para hostilizar imigrantes e atacar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A engrenagem envolve o portal La Derecha Diario, o consultor Fernando Cerimedo, indiciado pela Polícia Federal no inquérito do golpe e conhecido por difundir alegações de fraude eleitoral em 2022, e influenciadores próximos do presidente argentino Javier Milei.
Centro
Contas argentinas ligadas ao consultor Fernando Cerimedo e a influenciadores próximos do presidente Javier Milei impulsionaram entre 21 e 27 de agosto de 2026 uma campanha sobre uma suposta invasão de imigrantes marroquinos em Santa Catarina atribuída a políticas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Direita
Sem cobertura neste espectro.
2 fontes políticas
Veículos com viés à esquerda
O texto abre já qualificando o conteúdo como 'mentiras' e organiza a narrativa em torno da proximidade do consultor argentino com o clã Bolsonaro e com influenciadores 'da direita', enquadramento que responsabiliza um campo político específico. Os dados de refúgio são corretos e atribuídos a fontes oficiais, mas a seleção de contexto e o vocabulário empregado alinham a matéria ao campo de esquerda.
Perspectivas omitidas
Veículos com viés ao centro
A matéria descreve a campanha com linguagem descritiva, cita as publicações originais entre aspas, apresenta os números oficiais de refúgio lado a lado com a alegação viralizada e ouve duas pesquisadoras e a coordenadora da entidade que atendeu os imigrantes. Registra explicitamente que não localizou a defesa do consultor, marca de esforço de contraditório típica da cobertura de centro.
Perspectivas omitidas
Veículos com viés à direita
Nenhum veículo de direita cobriu esta história.
Uma campanha nascida em um portal argentino transformou algumas dezenas de pedidos de refúgio de marroquinos em Santa Catarina em uma suposta invasão migratória atribuída ao governo Lula. Levantamento do Observatório Lupa mapeou 13,4 mil menções em uma semana, enquanto dados do ObMigra e do Conare mostram que marroquinos são 1,86% das solicitações no estado.
Uma campanha de desinformação nascida no portal argentino La Derecha Diario transformou algumas dezenas de pedidos de refúgio de marroquinos em Santa Catarina em uma suposta invasão migratória atribuída a políticas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O percurso da narrativa foi reconstruído pelo Observatório Lupa, que mapeou 13,4 mil menções em redes sociais e sites entre sexta-feira, 21 de agosto de 2026, e a quinta-feira seguinte, dia 27. Publicações com títulos como o que dizia que uma onda de imigrantes marroquinos chegava ao Brasil pelas mãos de Lula alcançaram 475 mil visualizações, em português e em espanhol, partindo principalmente de contas baseadas na Argentina e, em seguida, no Brasil.
O ponto de partida foi um dado verdadeiro. A notícia de que 50 marroquinos haviam solicitado refúgio em Santa Catarina em três meses virou, no texto do portal argentino, a afirmação de que a imigração marroquina havia disparado no país por impulso do governo federal, com consequências econômicas para os municípios catarinenses. Os registros oficiais desmontam a proporção. Segundo o ObMigra e o Conare, 57 marroquinos pediram refúgio em Santa Catarina em 2026 até julho, o equivalente a 1,86% dos 3.059 pedidos feitos no estado. À frente deles aparecem cubanos, com 1.707 solicitações, haitianos, com 543, venezuelanos, com 227, e argentinos, com 61. No Brasil inteiro foram 40.961 pedidos no período, sendo 24.008 de cubanos, 6.880 de venezuelanos e 835 de marroquinos. As postagens ainda ilustraram o caso brasileiro com fotos da crise migratória de Ceuta, o enclave espanhol no norte da África, ocorrida em maio, quando milhares de marroquinos chegaram ao território vindos a nado ou em barcos.
No centro da rede está o consultor argentino Fernando Cerimedo, dono de 50% do La Derecha Diario até a semana anterior à publicação das reportagens. Ele ganhou projeção no Brasil depois do segundo turno de 2022, quando passou a afirmar, sem apresentar provas, que o resultado eleitoral havia sido fraudado, e foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito sobre a tentativa de golpe, embora não tenha sido incluído na denúncia da Procuradoria-Geral da República. No fim de julho, participou de uma transmissão ao vivo com Eduardo Bolsonaro na qual os dois voltaram a levantar suspeitas sobre o sistema eleitoral brasileiro. Cerimedo deixou a sociedade do portal pouco depois de ser preso na Bolívia, acusado de ter mandado matar a ex-companheira Nadia Beller, que está grávida. Ele nega envolvimento no crime. Entre os amplificadores da campanha está o influenciador Christopher Marchesini, conhecido como Mate con Mote, recebido em maio pelo presidente argentino Javier Milei na residência oficial da Presidência.
Os dois lados que cobriram o caso convergem nos números e na origem da narrativa. Veículos de esquerda destacaram a proximidade do consultor com o clã Bolsonaro e o histórico de ataques ao sistema eleitoral brasileiro, tratando o episódio como continuidade de uma operação política que agora usa a imigração como munição. A cobertura de centro relatou o mesmo conjunto de dados com ênfase na metodologia do levantamento, ouviu pesquisadoras do Observatório Lupa e registrou o efeito concreto sobre a Missão Scalabrini Pastoral do Migrante, entidade que assistiu os 50 marroquinos e relatou aumento expressivo de comentários hostis nas redes. Veículos de direita não haviam publicado apuração própria sobre o levantamento até o fechamento desta reportagem, e o argumento que costuma organizar esse campo, o de que o volume real de pedidos de refúgio merece debate público sobre capacidade de acolhimento nos municípios, aparece apenas indiretamente, na própria alegação que foi checada.
Para os analistas ouvidos, o caso combina informação verdadeira usada de forma prejudicial com desinformação propriamente dita, ao acrescentar relações causais e alegações sem prova para criar a impressão de crise migratória. A avaliação das pesquisadoras é de que a Argentina desponta como novo ator em operações estrangeiras de influência na América Latina, papel normalmente associado a Rússia, China e Irã.
O que ainda não se sabe é quanto dessa amplificação foi orgânica e quanto foi coordenada ou paga, se há financiamento por trás das contas identificadas e qual o vínculo operacional, se existir, entre os perfis argentinos e os brasileiros que replicaram o conteúdo.
As duas coberturas partem dos mesmos números oficiais do ObMigra e do Conare e concordam que os 57 pedidos de refúgio de marroquinos representam 1,86% das 3.059 solicitações feitas em Santa Catarina em 2026 até julho, muito abaixo de cubanos, haitianos e venezuelanos, e que as imagens usadas nas publicações são da crise de Ceuta, na Espanha.

Campanha originada em veículo ligado a Cerimedo usa imagens de uma crise migratória na Espanha e distorce dados sobre pedidos de refúgio no estado

Observatório mapeia viralização de mensagens de veículo associado a Cerimedo, próximo do clã Bolsonaro e que foi preso
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