O ex-candidato de esquerda Roberto Sánchez reconheceu, na segunda-feira 6 de julho de 2026, a proclamação de Keiko Fujimori como presidente eleita do Peru, encerrando uma das disputas mais acirradas da história recente do país. O reconhecimento veio três dias depois de o Júri Nacional de Eleições (JNE) declarar oficialmente a vitória da líder conservadora para o período de 2026 a 2031. Segundo a apuração final, Fujimori obteve 50,135% dos votos no segundo turno, realizado em 7 de junho, contra 49,865% de Sánchez. A diferença foi de apenas 49.641 votos, e a contagem levou três semanas para ser concluída.
A cobertura de centro, de veículos como o Correio Braziliense e o Poder360, ambos reproduzindo em boa parte o despacho da agência AFP, relatou o fato de forma factual: Sánchez formalizou a derrota por meio de um comunicado conjunto de seu partido, Juntos pelo Peru, com as legendas Obras, de centro-esquerda, e Agora Nação. No texto, os partidos afirmam reconhecer que o JNE proclamou oficialmente os resultados, mas ressalvam que isso não implica renunciar ao direito de apontar e denunciar irregularidades que, em seu entendimento, afetaram o processo eleitoral. Desde que perdeu a dianteira na contagem, Sánchez vinha questionando a legitimidade dos resultados, alegando irregularidades nos votos do exterior. O JNE já havia rejeitado, por considerar infundado, um pedido de anulação desses votos, e Sánchez recorreu à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Os três lados convergem nos fatos centrais: o resultado oficial, a margem estreita, o reconhecimento com ressalvas e o retorno do fujimorismo ao poder 26 anos após a queda de Alberto Fujimori, pai de Keiko. As diferenças aparecem na ênfase. Veículos de esquerda, como a CartaCapital, deram destaque à leitura do campo derrotado, que enquadra o reconhecimento como respeito à institucionalidade sem abrir mão de denunciar o que considera irregularidades, e à pauta da coalizão de oposição: controle político firme no Congresso, defesa da justiça social e libertação do ex-presidente Pedro Castillo, preso após a tentativa de autogolpe de 2022. Veículos de direita e de perfil conservador tendem a enfatizar que a vitória foi validada pela Justiça Eleitoral e aceita pelo próprio adversário, tratando a insistência em irregularidades como resistência a um resultado já consolidado, e destacam a promessa de revogar leis vistas como favoráveis ao crime e de restabelecer a segurança jurídica.
O contexto histórico também divide interpretações. O legado de Alberto Fujimori, que fechou o Congresso em 1992 no episódio conhecido como autogolpe, suspendeu a Constituição e assumiu poderes ditatoriais, é lembrado por apoiadores pela estabilização econômica e pelo combate a grupos insurgentes, e por críticos pelas violações de direitos humanos, corrupção e autoritarismo. Keiko, de 51 anos, filha do ex-presidente, fundou o Força Popular em 2009 e preside a sigla desde 2013.
O que ainda não se sabe é o desdobramento concreto das denúncias de Sánchez perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e se elas terão qualquer efeito sobre a posse. Também permanece em aberto como se dará a relação entre a nova presidente e a coalizão de oposição no Congresso, e quais das leis contestadas pela esquerda entrarão de fato na agenda. Fujimori toma posse em 28 de julho para governar até 2031.