A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira, 25 de junho, a segunda fase da Operação Disclosure, em conjunto com o Ministério Público Federal, para aprofundar a investigação sobre a fraude contábil bilionária nas Lojas Americanas. Segundo laudos técnicos periciais, a estimativa de prejuízo já alcança cerca de R$ 54 bilhões, um dos maiores rombos da história empresarial brasileira.
Entre os alvos estão acionistas de referência e ex-dirigentes da varejista. A cobertura de centro relatou que figuram na lista Paulo Alberto Lemann, filho do bilionário Jorge Paulo Lemann, além de Carlos Alberto da Veiga Sicupira, Eduardo Saggioro Garcia e outros nomes ligados a instituições financeiras que mantinham relação com a companhia. Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou ainda o sequestro de bens e valores em nome dos investigados, até o limite de R$ 54 bilhões.
Todos os lados convergem sobre a mecânica da suposta fraude. Segundo a PF e o MPF, antigos dirigentes da empresa teriam estruturado um esquema para aumentar artificialmente os lucros e a disponibilidade de caixa, escondendo passivos e adulterando demonstrações financeiras com o objetivo de elevar o valor das ações negociadas no mercado. O esquema estaria relacionado a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada, supostamente contabilizados sem lastro econômico. As apurações apontam indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e de associação criminosa. Investigadores afirmam que os suspeitos recebiam bônus milionários vinculados aos resultados financeiros e também lucravam com a venda de ações valorizadas artificialmente.
É no enquadramento que as coberturas se separam. Veículos de esquerda destacaram que o caso é a face da corrupção que nasce dentro do próprio mercado, e não apenas no Estado, apontando que bilionários símbolos do empresariado teriam conhecimento da fraude montada ao longo de anos. Essa cobertura enfatiza o risco de a conta acabar paga pela sociedade, via Tesouro Nacional, e levanta a sensação de impunidade dos muito ricos, lembrando que um ex-CEO chegou a ser solto pouco depois de preso. Já uma leitura de mercado, mais à direita, tende a enquadrar a operação como defesa da integridade do mercado de capitais e da confiança dos investidores: a punição da fraude protegeria acionistas minoritários e a previsibilidade das regras, com a ressalva da presunção de inocência enquanto a investigação corre.
A cobertura de centro registrou ainda a manifestação da empresa. Em nota, as Americanas afirmaram que não foram alvo da operação e que seguirão colaborando com as investigações.
O que ainda não se sabe é o desfecho jurídico do caso: não há, até aqui, definição sobre eventuais denúncias formais, prazos da investigação, a extensão real do bloqueio de bens efetivamente cumprido ou a versão de defesa individual dos acionistas de referência citados como alvos.