A ministra Cármen Lúcia, única mulher entre os 11 integrantes do Supremo Tribunal Federal, afirmou que a Corte só alcançará igualdade de gênero quando todas as cadeiras forem ocupadas por mulheres. A declaração foi feita na terça-feira, 4 de agosto de 2026, em painel do Summit Mulheres nas Profissões, em São Paulo, diante de plateia majoritariamente feminina.
"Quando me perguntam quando o Supremo Tribunal Federal terá igualdade de homens e mulheres nas cadeiras, eu respondo: quando as 11 forem de mulheres", disse a ministra. Ela completou o raciocínio com a justificativa que atravessou toda a palestra: "Porque nós tivemos sempre 11 homens dizendo que sabiam o que a gente queria. Ninguém sabe o que a gente quer. Quem sabe o que a gente quer é a gente mesmo."
Toda a cobertura converge nos elementos centrais. A frase foi dita em resposta a uma pergunta sobre paridade na Corte, em evento realizado em 4 e 5 de agosto no Expo Center Norte. A ministra vinculou igualdade de gênero à qualidade da própria democracia, ao afirmar que não há democracia forte sem garantia de igualdade entre mulheres e homens, e sustentou que o princípio já está previsto em leis, constituições e tratados internacionais, sem que a realidade acompanhe a norma.
A cobertura de centro tratou o episódio como registro factual e acrescentou o contexto histórico que dimensiona a fala: além de Cármen Lúcia, apenas duas mulheres integraram o Supremo. Ellen Gracie foi a primeira, nomeada em 2000, e permaneceu até 2011. Rosa Weber assumiu em 2011 e se aposentou em 2023. Desde então, a Corte voltou a ter uma única ministra. Esse enquadramento também detalhou o desenho do evento, organizado pelo Grupo Mulheres do Brasil, com mais de cem palestrantes distribuídos em sete arenas temáticas.
Veículos de direita publicaram o registro dentro da editoria de negócios, com destaque para o ambiente empresarial do encontro e para a organizadora, a empresária Luiza Trajano. Nesse enquadramento, o evento aparece como vitrine de executivas e empreendedoras, e a fala da ministra convive com pautas de crédito e de pequenas empresas discutidas no mesmo palco. A leitura que se espera desse lado separa o diagnóstico da fórmula: a sub-representação feminina no Judiciário é reconhecida, mas a ideia de 11 cadeiras femininas tende a ser tratada como figura de retórica, já que a composição do Supremo depende de indicação presidencial e de sabatina no Senado, com o critério de qualificação técnica no centro.
A leitura típica de veículos de esquerda vai na direção oposta e toma a frase como denúncia de um déficit estrutural de representação, ligando a ausência de mulheres nos espaços de decisão à persistência da violência de gênero. Nessa chave ganham peso os trechos em que a ministra afirmou que quem mata as mulheres são parceiros e amigos, no ambiente doméstico, e o dado, atribuído ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de que 80% dos feminicídios no país envolvem parceiros e ex-parceiros. Também entram aí a crítica à imposição de padrões de corpo e às cirurgias motivadas por pressão do companheiro, além dos três compromissos apresentados por ela: educação desde a infância para uma cultura de respeito, união entre mulheres e uma campanha de mobilização, intitulada "Levante, mulher", com previsão de lançamento em novembro.
O que ainda não se sabe é como a formulação se traduziria em prática institucional. Nenhuma cobertura detalha se a ministra defende algum mecanismo formal de paridade nas indicações ao Supremo ou se a frase foi apenas um recurso retórico para expor a assimetria atual. Não há reação registrada do Palácio do Planalto, responsável pelas indicações, nem do Senado, que as aprova, e tampouco manifestação dos demais integrantes da Corte. Também seguem em aberto a data, o formato e o alcance da campanha anunciada para novembro.