O tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros virou o centro de uma disputa direta entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência. O estopim foi uma carta que Flávio enviou ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, pedindo a suspensão ou o adiamento de uma tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras. No documento, o senador sugere que uma decisão definitiva fique para depois das eleições de outubro.
Os fatos centrais são reconhecidos por todos os lados da cobertura. Flávio Bolsonaro escreveu ao órgão americano argumentando que a manutenção das sobretaxas representaria uma vitória política para Lula e poderia ser interpretada como interferência no processo eleitoral brasileiro. A carta também pede que o governo de Donald Trump abra negociação bilateral com os setores mais afetados, defende que o Brasil se liberte das chamadas amarras do Mercosul e trata do PIX, sistema de pagamentos que vem sendo alvo de críticas do USTR. Do outro lado, Lula usou as redes sociais para rebater duramente o conteúdo, classificando a atitude como traição à pátria e acusando a família Bolsonaro de entreguismo, com a frase o Brasil não está à venda. Há uma audiência pública nos Estados Unidos marcada para a segunda-feira seguinte, da qual Flávio participaria, e o prazo de 15 de julho para os americanos decidirem sobre a aplicação das tarifas.
É na interpretação desses fatos que as coberturas divergem. A cobertura de centro, como a apuração jornalística que ouviu a analista de política Jussara Soares, relatou que o tema já se tornou um dos pontos mais relevantes da pré-campanha e tratou a disputa com paridade: para Lula, o discurso de soberania nacional costuma melhorar as pesquisas de intenção de voto; para Flávio, atuar nas relações com os Estados Unidos também serviria para desviar o foco de crises internas. Veículos de esquerda enfatizaram o ângulo da subordinação a interesses estrangeiros, enquadrando o pedido de adiamento como manobra eleitoral do senador para não se prejudicar nas urnas, e destacaram que a defesa do PIX por Flávio ignora que o sistema foi estruturado pelo Banco Central a partir de 2018, com lançamento em 2020. Veículos de direita, por sua vez, enfatizaram a defesa da economia e a responsabilização do governo: a tarifa puniria exportadores brasileiros, investidores e a própria economia americana, e recompensaria o governo Lula pela estratégia de provocar Washington para depois converter a retaliação em capital político. Nessa ótica, o PIX é infraestrutura pública soberana e intocável, e sanções da Lei Magnitsky seriam instrumentos mais precisos que uma tarifa ampla.
O que ainda não se sabe é se o governo Trump vai efetivamente aplicar, adiar ou suspender as tarifas até o prazo de 15 de julho, qual será o resultado da audiência pública nos Estados Unidos e como a investigação da Seção 301, que aponta supostas práticas desleais do Brasil em comércio digital, propriedade intelectual e combate ao desmatamento ilegal, será concluída. Também permanece em aberto o efeito real da disputa sobre a intenção de voto às vésperas da eleição.