O tarifaço de 25% que o governo dos Estados Unidos ameaça aplicar sobre produtos brasileiros se transformou em um dos principais pontos de disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência em 2026. Em 1º de julho, Flávio enviou uma carta ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) pedindo a suspensão da tarifa ou, ao menos, o adiamento da decisão para depois das eleições de outubro. No documento, o senador argumentou que a manutenção da taxa representaria uma "vitória política" para o governo Lula e defendeu que o Brasil se afaste do Mercosul para negociar livremente com os americanos.
Lula reagiu nas redes sociais classificando o pedido como "traição à pátria" e afirmando que Flávio tentou entregar o Pix a interesses estrangeiros. "O Brasil não está à venda", escreveu o presidente. Na semana seguinte, Flávio viajou a Washington e, em 7 de julho, prestou depoimento em audiência pública do USTR, onde reforçou o pedido de adiamento e criticou o Supremo Tribunal Federal e o governo do PT.
Os fatos centrais são consenso entre os diferentes veículos: a carta foi enviada, Lula respondeu duramente, e o prazo para os Estados Unidos decidirem sobre a tarifa termina em 15 de julho. Também é consenso que o tema já entrou na disputa eleitoral: pesquisas Datafolha, Gerp e BTG/Nexus divulgadas na mesma semana mostram Lula e Flávio em empate técnico, tanto no primeiro turno em São Paulo, onde ambos marcam 35%, quanto em simulações de segundo turno.
A cobertura diverge na interpretação do episódio. Veículos de esquerda descreveram a atuação de Flávio como uma tentativa de submeter o Brasil à pressão americana, destacando que seu argumento sobre o Pix ignora que o sistema foi concebido de forma técnica pelo Banco Central a partir de 2018, e apontando que as investigações judiciais contra a família Bolsonaro seguem como variável não capturada pelas pesquisas. Já veículos de direita enfatizaram a versão de Flávio de que Lula é o único interessado na manutenção da tarifa por cálculo eleitoral, reproduzindo sua acusação de que o presidente "lambe as botas da China" e sua defesa do Pix como sistema soberano. A cobertura de centro relatou o episódio de forma mais factual, contrapondo as falas de Flávio às notas oficiais do governo, que classificou a movimentação do senador como "diplomacia clandestina" e reforçou a acusação de traição à pátria.
O quadro eleitoral ganhou outro capítulo quando o pré-candidato Ronaldo Caiado (PSD) criticou publicamente tanto Lula quanto Flávio, dizendo que um voto no senador poderia beneficiar a reeleição do presidente. Dias depois, Aécio Neves (PSDB) anunciou que não disputará a Presidência em 2026, deixando o partido sem nome próprio na corrida nacional e reorganizando alianças estaduais, caso da disputa em Alagoas.
O que ainda não se sabe é se os Estados Unidos aplicarão de fato a tarifa de 25% a partir de 15 de julho ou se abrirão exceções adicionais, como o governo brasileiro tem buscado nos bastidores. Também não está claro até que ponto o episódio afetará o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro nos próximos meses, já que as pesquisas divulgadas até agora mostram um cenário de empate técnico tanto em São Paulo quanto no cenário nacional de segundo turno.