O senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, apareceu no sistema da Justiça Eleitoral como filiado ao partido Missão na manhã de quinta-feira, 13 de agosto de 2026, e ficou algumas horas impedido de registrar sua candidatura. O Tribunal Superior Eleitoral afirmou, em nota, que não houve invasão de seus sistemas: a alteração decorreu do uso indevido da ferramenta de filiação por alguém que possuía credenciais da legenda para efetivar registros. No fim da tarde, o presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, restabeleceu o vínculo do senador com o Partido Liberal, considerado contínuo desde 30 de novembro de 2021, ordenou a exclusão do registro no Missão e liberou o sistema Candex, usado para protocolar pedidos de registro de candidatura.
A cobertura de centro reuniu os detalhes técnicos. O relatório divulgado pela área de tecnologia do Missão aponta cadastro com CPF genérico, título eleitoral divergente e o endereço fictício Rua dos Bandidos, número 666, Bairro Miliciano, no Rio de Janeiro. O documento indica uma tentativa em 2 de agosto, com dois pagamentos por Pix bloqueados, e o registro efetivado a partir de um endereço de internet localizado em Belo Horizonte, com a ressalva de que esse dado pode ser mascarado. A legenda diz que pediu o cancelamento e recebeu recusa do sistema. Advogados do senador sustentam que a certidão emitida às 23h17 de 12 de agosto ainda o registrava como filiado regular e exclusivo ao Partido Liberal.
Os blocos de cobertura convergem em quatro pontos: a filiação não foi autorizada pelo senador, não houve hackeamento segundo a Corte, a decisão liminar devolveu o registro dentro do prazo e a Polícia Federal vai apurar a autoria. A conduta em exame é a inserção de dados falsos em sistema de informações, com pena de dois a doze anos de reclusão.
As divergências aparecem na escolha do que enfatizar. Veículos de direita destacaram a dimensão de sabotagem eleitoral: um candidato filiado há quase cinco anos quase saiu da disputa por ato de terceiro, e a ferramenta pública aceitou um cadastro com dados evidentemente falsos, o que desloca a cobrança para a segurança do sistema e a punição do autor. Veículos de esquerda destacaram outro ângulo: a Corte desmentiu a tese de ataque hacker em poucas horas e corrigiu o cadastro no mesmo dia, mas a alegação de que o sistema estaria sendo usado para barrar o candidato circulou nas redes e alimentou o questionamento à Justiça Eleitoral. Essa leitura insiste ainda no aviso que o Missão diz ter enviado ao gabinete do senador em 2 de agosto, com e-mails abertos e não respondidos. A cobertura de centro manteve as duas versões lado a lado: a explicação do dirigente Renan Santos, de que a confirmação por e-mail é automática e alguém com acesso à caixa institucional clicou nos links, e a resposta de auxiliares do parlamentar de que se tratava apenas de mensagens automáticas.
O caso tem precedente. Em 2024, veio a público que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia sido filiado indevidamente ao Partido Liberal; a investigação concluiu que um adolescente inserira dados falsos no sistema.
O que ainda não se sabe é o principal. A autoria segue indefinida: autoridades receberam o nome do usuário ligado ao acesso, o horário e os registros de atividade, mas não está esclarecido se o dirigente identificado fez o cadastro ou se alguém usou suas credenciais. Também não há resposta pública sobre quem acessou o e-mail institucional do gabinete nem sobre por que o sistema aceitou CPF divergente do título eleitoral e recusou o pedido de exclusão da legenda. O prazo para o registro das candidaturas termina às 19h de sábado, 15 de agosto.