O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou na terça-feira, 18 de agosto de 2026, uma imagem na rede social Truth Social em que o Estreito de Ormuz aparece circulado e identificado como novo território norte-americano. A montagem traz a passagem que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã marcada com as cores da bandeira dos Estados Unidos, e foi divulgada sem nenhum texto do presidente. Até o momento, nenhum ato oficial foi anunciado para alterar o status jurídico da região.
A publicação encerra uma sequência de declarações. Na quarta-feira anterior, Trump havia escrito na mesma rede que os Estados Unidos têm controle total do estreito e que pretendia mantê-lo. Na sexta-feira, 14 de agosto, durante um comício em Long Island, no estado de Nova York, afirmou que declararia a rota território norte-americano depois de derrotar o Irã e disse que existe um bloqueio pelo qual nenhum navio passa sem autorização de Washington. Na segunda-feira, 17, ao falar com jornalistas no Salão Oval, voltou ao assunto e disse gostar da ideia.
O gesto veio um dia depois de expirar o memorando de entendimento assinado por Estados Unidos e Irã em 17 de junho. O documento enviado pela Casa Branca ao Congresso norte-americano previa a suspensão das operações militares, a retirada do bloqueio naval aos portos iranianos em até 30 dias e a livre passagem comercial por Ormuz durante 60 dias, prazo que deveria ser usado para negociar um acordo mais amplo. As hostilidades foram retomadas poucas semanas depois da assinatura, com os dois governos acusando-se mutuamente de descumprimento. Trump declarou o entendimento encerrado em 7 de julho, o governo iraniano anunciou depois sua suspensão, e o prazo terminou nesta semana sem novo pacto. O presidente norte-americano afirmou que não mantém conversas com dirigentes iranianos e que não há negociações agendadas.
Toda a cobertura converge em três pontos verificáveis. O primeiro é a divergência de versões: Washington sustenta que a passagem está aberta e segura, enquanto o principal negociador iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, afirma que a circulação só será restabelecida quando os Estados Unidos encerrarem o bloqueio naval, retirarem as sanções sobre as exportações de petróleo, liberarem ativos congelados no exterior e interromperem operações militares. O segundo é o efeito material: apenas seis navios de commodities cruzaram o estreito na terça-feira, contra nove na segunda e uma média recente de onze por dia, e o volume de petróleo bruto e derivados que atravessa a rota caiu de 21,6 milhões de barris diários no quarto trimestre de 2025 para 4,9 milhões no segundo trimestre deste ano, segundo a agência de energia norte-americana. O terceiro é o enquadramento jurídico: a Organização Marítima Internacional afirma que estreitos usados para navegação internacional não podem ser fechados pelos países que fazem fronteira com essas águas, e o esquema de separação de tráfego em vigor ali foi proposto por Irã e Omã e adotado em 1968.
As diferenças aparecem na ênfase. A cobertura de centro tratou o episódio como mais um capítulo de uma crise medida por números, dedicando espaço às condições iranianas, à contagem de embarcações, ao preço do petróleo Brent no maior nível em três semanas e às regras marítimas internacionais, sem qualificar o gesto presidencial. Veículos de esquerda destacaram o caráter de provocação e de escalada retórica, ligaram a publicação a um padrão de anexação simbólica que já havia produzido montagens sobre a Groenlândia e o Canadá em janeiro de 2026, e sublinharam que a rota é vital para o transporte de petróleo, gás e fertilizantes, o que transforma a ameaça em pressão sobre o comércio internacional. Neste conjunto de fontes não houve cobertura de veículos de direita, ausência que forma o ponto cego da história: ficou sem tratamento o ângulo da dissuasão, isto é, a leitura de que a restrição à navegação parte de Teerã e de que a demonstração de força seria o instrumento para reabrir a passagem.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há informação sobre qualquer medida formal que sustente juridicamente a reivindicação, nem sobre como uma declaração desse tipo se compatibilizaria com o direito marítimo internacional. Também não está claro se há canal de negociação ativo entre os dois governos, qual seria o novo prazo para restabelecer o tráfego pleno e por quanto tempo as empresas de navegação seguirão evitando a região por risco de segurança.