A União Europeia convocou reuniões de emergência para tratar da crise migratória em Ceuta, o enclave espanhol no norte da África que faz a única fronteira terrestre do bloco com o continente africano, ao lado de Melilla. A escalada começou em 30 de julho, quando cerca de 60 mil pessoas atravessaram de uma vez o limite entre o Marrocos e o território espanhol, boa parte delas a nado, contornando o quebra-mar de Tarajal. Ao menos 67 pessoas morreram na onda de travessias. Quatro dias depois, segundo as autoridades espanholas, quase todos os que haviam chegado já haviam retornado ao Marrocos.
A cobertura de centro relatou os fatos com atribuição institucional e trabalho de campo. Vinte e dois Estados-membros assinaram uma carta conjunta endereçada ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e ao primeiro-ministro irlandês, Michael Martin, já que a Irlanda ocupa a presidência rotativa do bloco. O documento cobra ação coordenada, reforço das fronteiras externas e alerta para o risco de se consolidar a percepção de que a entrada irregular na União Europeia é possível, o que, segundo os signatários, incentivaria novas tentativas e abalaria a confiança na política migratória comum. A Itália suspendeu por um mês a aplicação do acordo de Schengen com a Espanha, medida apoiada por Finlândia e Dinamarca, enquanto França e Portugal disseram avaliar controles fronteiriços. Von der Leyen classificou as imagens como inaceitáveis e o chanceler alemão cobrou que o Marrocos receba de volta os imigrantes irregulares de imediato.
O governo espanhol reagiu em duas frentes. O primeiro-ministro, Pedro Sánchez, escreveu à Comissão Europeia dizendo ter sérias preocupações com governos que, segundo ele, atacaram a Espanha motivados por preconceito, notícias falsas, ignorância ou interesses políticos, e classificou a resposta de parte do bloco como egoísta, polarizadora e ilegal. Sánchez lembrou que Ceuta não integra o Espaço Schengen e afirmou que a fronteira foi retomada em menos de 48 horas, sem movimento não autorizado em direção à Europa continental. O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, disse no sábado que a situação voltou praticamente à normalidade, que o comércio local reabriu e que o país trabalha em uma barreira inflável para conter travessias pela água. Questionado sobre o papel do país vizinho, ele afirmou que o Marrocos é parceiro absolutamente confiável e não representa ameaça.
É na leitura do episódio que os enquadramentos se separam. Veículos de esquerda concentraram o relato no número de mortos e na devolução em massa conduzida por soldados equipados com coletes e capacetes, e deram espaço à fala de migrantes que se descrevem como peças em um jogo de poder entre dois Estados: pessoas que dormiram na rua, ficaram sem comida, relataram perseguição por grupos armados de moradores e voltaram sem análise individual de pedido de proteção. Nessa chave, a resposta europeia foi securitária e a causa do fluxo — desemprego juvenil e falta de serviços públicos no país de origem, que já motivaram protestos de jovens no ano passado — segue fora da pauta de emergência. Veículos de direita não figuram entre as fontes deste conjunto de reportagens, mas o ângulo desse campo aparece nas vozes citadas pelas próprias matérias: moradores de Ceuta que falam em invasão e em ausência de lei e ordem, comerciantes que cobram um sistema organizado de contenção, e a crítica à decisão do Supremo Tribunal espanhol que restringiu deportações imediatas e teria funcionado como incentivo às travessias, somada à regularização de 500 mil indocumentados aprovada em abril.
Há pontos ainda em aberto. Não se sabe qual foi exatamente o papel das autoridades marroquinas: migrantes relataram ter sido incentivados a avançar por guardas na fronteira, moradores suspeitam de orquestração e um analista de um centro internacional de estudos afirma haver indícios de algum tipo de papel oficial, mas o motivo permanece indeterminado e o governo do Marrocos não respondeu publicamente às acusações nas reportagens. Também não está esclarecida a origem das campanhas em redes sociais que espalharam a informação de que a fronteira estava aberta.