O contrato de aluguel da casa no Lago Sul, em Brasília, frequentada por Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e pela lobista Roberta Luchsinger, foi assinado por Rafael Nicolau Fioruci Arbex, dentista que em 2018 prestou depoimento à 13ª Vara Federal de Curitiba como testemunha de Fernando Bittar no processo do sítio de Atibaia. A informação foi confirmada pela imobiliária TRK, que intermediou a primeira locação, fechada em 2024.
Segundo a nota enviada pela imobiliária, Roberta Luchsinger visitou o imóvel e participou das reuniões para discutir o aluguel, mas nunca constou como locatária em contrato intermediado pela empresa. A TRK afirma ainda que, depois daquela primeira locação, todas as tratativas e eventuais novos contratos passaram a ser tratados diretamente entre o proprietário e os envolvidos, sem participação dela. O proprietário, procurado, alegou ter assinado contrato de confidencialidade e se recusou a dar informações. A casa tem três quartos e 2.110 metros quadrados em condomínio fechado à beira do Lago Sul, e o aluguel é de R$ 28 mil.
A cobertura de centro e a de direita convergem no essencial do que está documentado. Rafael Nicolau Fioruci Arbex é o nome que consta do contrato. Em 2018, ele declarou à Justiça Federal que morava de graça no sítio de Atibaia a convite de Fernando Bittar, negou que a família de Luiz Inácio Lula da Silva frequentasse o local e afirmou conhecer Fábio Luís e Fernando Bittar havia cerca de 25 anos. A mulher de Bittar, Lilian, é prima do dentista. Bittar era o proprietário formal do sítio, reformado com participação de Odebrecht, OAS e Schahin; perícia da Polícia Federal estimou as obras em R$ 1,2 milhão em valores da época. Luiz Inácio Lula da Silva sempre negou relação com a propriedade, foi condenado em 2019 a 17 anos e 1 mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro e teve a sentença anulada pelo Supremo Tribunal Federal em 2021. Arbex, sócio das empresas Tex Serv e Texsaúde, foi procurado em diversos telefones de cadastros públicos e não foi localizado.
As divergências aparecem no peso dado a cada elemento. Veículos de direita trataram o caso como ligação entre a mansão de Brasília e o processo de Atibaia, título e fecho incluídos, e suprimiram as manifestações das defesas, apresentando a repetição do nome como continuidade documental entre os dois episódios. A cobertura de centro sustentou o mesmo conjunto de fatos, mas manteve o vínculo no plano do que o papel mostra: o contrato saiu em nome de terceiro, com exigência de confidencialidade, sem afirmação de ilícito. Essa cobertura também registrou o contraditório, ou seja, que a defesa de Fábio Luís Lula da Silva, encabeçada pelo advogado Marco Aurélio Carvalho, sustenta que ele nunca morou na casa do Lago Sul, não cometeu irregularidade e não participou de reuniões com empresários ligados à lobista, e que o advogado Roberto Podval, que representa Roberta Luchsinger, não respondeu até o fechamento da apuração. Até o momento, nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio, e a leitura que contesta o encadeamento entre Atibaia e o aluguel de 2024 não aparece em matéria própria.
O entorno da lobista compõe o quadro. Em 18 de dezembro de 2025, dia em que foi alvo de uma das etapas da Operação Compliance Zero, que apura fraudes no INSS, Roberta Luchsinger publicou nas redes uma foto dos pés cruzados diante da piscina da casa, com a legenda "aos mentirosos, apenas a justiça". Três funcionários relataram que ela realizava reuniões discretas no local e que ninguém morava lá. Uma empregada doméstica que trabalhou sete meses na residência, Zildeni Souza, afirmou que a lobista e Fábio Luís frequentavam a casa pelo menos duas vezes por mês, e que o ex-chefe de gabinete de Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Aurélio Santana Ribeiro, teria participado de um desses encontros. Segundo as investigações, a lobista comprou joias de R$ 9 mil para ele presentear no Dia das Mães; a própria defesa dele calcula em R$ 249 mil as despesas pagas pela lobista e afirma que o dinheiro já foi devolvido.
O que ainda não se sabe é quem efetivamente pagou os aluguéis depois do primeiro contrato, já que a imobiliária deixou de intermediar as renovações e o proprietário se recusa a falar. Também não está esclarecido por que o dentista assinou o contrato, uma vez que ele não foi localizado, nem se Fábio Luís Lula da Silva é formalmente investigado em algum inquérito ou apenas citado.