O Brasil registrou em 2025 o menor número de assassinatos desde 2012, e as dez cidades com as menores taxas de mortes violentas do país estão concentradas em apenas dois estados: São Paulo, com sete municípios, e Santa Catarina, com três. Os dados constam da edição 2026 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado na quinta-feira, 23 de julho. Foram 40.775 vítimas de mortes violentas intencionais no ano passado, queda de 8% em relação a 2024, e a taxa nacional ficou em 19,1 por grupo de 100 mil habitantes, a primeira abaixo de 20 desde o início da série.
Até o momento, apenas um veículo cobriu o levantamento sob esse recorte, em reportagem descritiva de dados, com os rankings municipais e estaduais, entrevista com um pesquisador do próprio Fórum e a lista completa dos 338 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes. Não há, por enquanto, disputa editorial visível entre linhas diferentes de cobertura sobre o mesmo material.
No topo da lista das cidades com menos mortes aparece São Caetano do Sul, no ABC paulista, com 1,2 morte violenta intencional por 100 mil habitantes, seguida por Tubarão, em Santa Catarina, com 1,7. A categoria reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes cometidas por policiais. No extremo oposto, as dez cidades com as maiores taxas estão todas no Nordeste: cinco na Bahia, três no Ceará, uma em Pernambuco e uma na Paraíba. Maranguape, no Ceará, lidera pelo segundo ano seguido, com 100,3 mortes por 100 mil habitantes, alta em relação às 80 registradas em 2024.
Entre os estados, Santa Catarina passou a ter a menor taxa do país, 7,6 por 100 mil habitantes, e desbancou São Paulo, que liderava desde 2014 e ficou com 7,8. O Amapá segue como o estado mais violento, com 42,5, apesar de redução de 6% em um ano. Dezenove estados e o Distrito Federal reduziram suas taxas; sete tiveram alta. Um gerente de programas do Fórum, ouvido na reportagem, atribui o desempenho paulista a uma redução profunda iniciada nos anos 2000 e sugere que o caso catarinense, ligado ao tamanho do território e às políticas estaduais de segurança, seja mais bem estudado como referência para o restante do país. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará afirmou, em nota, que investimentos do último ano derrubaram os índices no primeiro semestre de 2026, com quedas de 97,4% em Maranguape e de 90,9% em Maracanaú.
O mesmo levantamento traz números que puxam em direção oposta e alimentam leituras contrárias no debate sobre segurança pública. Os feminicídios bateram recorde, com média de quatro mulheres mortas por dia, e subiram os registros de violência psicológica, stalking, ameaça e descumprimento de medida protetiva. As mortes cometidas por policiais cresceram 5%, enquanto o número de policiais mortos caiu 3%. A população prisional aumentou 6% e chegou a 964 mil pessoas, com projeção de passar de 1 milhão em 2027. Há 2,1 milhões de pessoas e empresas autorizadas a possuir armas, sendo 1 milhão com licença de caçador, atirador ou colecionador, e 1,6 milhão de armas cadastradas, três em cada dez com registro vencido. Entre os adolescentes em medida socioeducativa, cujo total caiu 54% em nove anos, 74% são negros.
O que ainda não se sabe é quais medidas concretas explicam o resultado de Santa Catarina, ponto que o próprio pesquisador ouvido classifica como pouco explorado. Também não está esclarecido como o levantamento trata a subnotificação e as mortes com causa indeterminada, variável que afeta a comparação entre estados, nem se as quedas informadas pelo governo do Ceará para o primeiro semestre de 2026 se confirmam em dado independente. Falta ainda explicação sobre por que a redução geral da violência letal não alcança as vítimas de feminicídio e sobre qual é a relação, se houver, entre a queda dos homicídios, o aumento da letalidade policial e o crescimento contínuo da população carcerária.