A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro deixou a presidência do PL Mulher em 30 de junho, poucos dias depois de publicar vídeos em que acusa o enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, de tê-la humilhado e maltratado. A crise, tornada pública em 24 de junho, tem origem em uma disputa por alianças políticas no Ceará, Estado que o PL considera estratégico para desafiar o domínio do PT no Nordeste nas eleições de 2026.
Michelle criticou publicamente a decisão de parte do PL de apoiar o ex-ministro Ciro Gomes na corrida ao governo do Ceará, negociação que também envolve a definição das candidaturas ao Senado no Estado. Nos vídeos, ela relatou ter recebido uma "punhalada" do enteado e disse que os irmãos Bolsonaro a atacaram de forma coordenada. Flávio respondeu negando ter ofendido a madrasta, afirmou ter tentado telefonar para ela antes da publicação das acusações e, em seguida, pediu desculpas publicamente. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, tentou mediar o conflito, chamando-o de "muito sério" para as chances eleitorais do partido.
A cobertura de centro relatou o histórico completo da disputa com espaço equivalente para as versões de Michelle e Flávio, incluindo a negociação sobre quem disputaria as vagas ao Senado cearense. Já veículos de direita, a partir de entrevista com a deputada Bia Kicis, aliada de ambos, defenderam que o desentendimento deveria ter sido resolvido nos bastidores e avaliaram que os efeitos da crise sobre a candidatura de Flávio foram menores do que se temia inicialmente, destacando o gesto conciliador do senador. Por outro lado, veículos de esquerda enfatizaram pesquisas que expõem fragilidades políticas na disputa: um levantamento da AtlasIntel mostrou que 81,9% dos eleitores de Jair Bolsonaro preferem Flávio a Michelle como candidato à Presidência, mas outra pesquisa, da Meio/Ideia, indicou que 64% dos que conheceram o vídeo consideram verdadeiros os relatos da ex-primeira-dama, e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém vantagem sobre Flávio tanto no primeiro quanto em um eventual segundo turno.
As pesquisas também mostraram que Michelle segue como uma referência política relevante: aparece em primeiro lugar quando eleitores são questionados espontaneamente sobre quem é a mulher mais poderosa do país, à frente da primeira-dama Janja e de ministras do Supremo Tribunal Federal. Ainda não está claro se a aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará será mantida como estratégia de primeiro turno ou adiada para o segundo, como pede Michelle, nem se haverá uma reconciliação pública entre ela e Flávio antes do início oficial da campanha eleitoral.