O ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência da República pelo partido Novo, Romeu Zema, defendeu na quinta-feira, 13 de agosto de 2026, a decretação de operações de Garantia da Lei e da Ordem, conhecidas pela sigla GLO, como instrumento de segurança pública em um eventual mandato. A declaração foi dada em entrevista a jornalistas durante o 13º Fórum Caminhos da Liberdade, promovido pelo Instituto de Formação de Líderes, em São Paulo. O evento reuniu também os candidatos Ronaldo Caiado e Renan Santos.
Na fala, Zema disse que quer fazer uso da lei da GLO e que União e estados se complementam na segurança pública. Afirmou que nada seria feito de forma unilateral pelo governo federal e que o emprego do instrumento seria discutido com os governadores, além de envolver prefeituras que já mantêm guardas municipais. Citou o Rio de Janeiro, sob novo governo estadual, como demonstração de que esse caminho é viável. A GLO está prevista no artigo 142 da Constituição e foi regulada pela Lei Complementar 97, de 1999, e pelo Decreto 3.897, de 2001. Ela precisa de autorização do presidente da República e concede temporariamente às Forças Armadas poder semelhante ao de polícia, em área e prazo previamente definidos.
A cobertura de centro concentrou-se na entrevista e na agenda eleitoral. Registrou as citações diretas do candidato, explicou o funcionamento jurídico do instrumento e informou que o primeiro ato oficial de campanha ocorrerá em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, no domingo, 16 de agosto. Segundo o próprio candidato, a escolha da cidade serve para destacar resultados econômicos da sua gestão na região, que ele descreve como uma das que mais cresceram e geraram emprego no estado. Ele afirmou ainda que pretende viajar o país, reforçar a presença em redes sociais e participar de todas as sabatinas e debates para os quais for convidado.
Já os veículos de direita foram além da declaração e abriram o plano de governo entregue ao Tribunal Superior Eleitoral, batizado pela campanha de Plano Implacável, cujo prazo de registro se encerrava naquele fim de semana. Nesse enquadramento, a GLO aparece como uma peça de um conjunto bem mais amplo: emprego integrado das Forças Armadas com polícias estaduais e Polícia Federal para retomar territórios dominados por facções, classificação nacional e internacional dessas organizações como grupos terroristas, construção de presídios de segurança máxima em regiões remotas como a floresta amazônica, redução da maioridade penal para 16 anos, fim da progressão de regime, prisão preventiva obrigatória para quem for preso em flagrante pela terceira vez, porte de arma em toda a extensão de propriedades rurais e autonomia para que cada estado crie crimes e agrave penas. O mesmo texto que detalhou as propostas apontou que elas vêm sem detalhamento, sem estimativa de custo e sem prazo de implementação, e que parte delas depende de aprovação do Congresso e, em alguns casos, de mudança na Constituição. O plano também prevê ampliação das Delegacias da Mulher com funcionamento contínuo, expansão das Patrulhas Maria da Penha e das Salas Lilás, uso intensivo de inteligência e integração de bases de dados policiais.
A divergência entre as coberturas está menos no fato e mais no recorte. A leitura de centro tratou o episódio como declaração de campanha e manteve o foco no que foi dito e no calendário eleitoral. A leitura de direita tratou o mesmo episódio como porta de entrada para o programa de segurança do candidato, dando peso ao endurecimento penal e à defesa da propriedade rural, ao mesmo tempo em que registrou as lacunas do documento. Até o fechamento desta reportagem, veículos de esquerda não haviam publicado cobertura própria sobre o anúncio, de modo que críticas ao uso militar na segurança pública não apareceram no material analisado.
O que ainda não se sabe é a parte mais concreta. Nenhuma das coberturas informa em quais estados ou territórios a GLO seria decretada, por quanto tempo, com que efetivo ou a que custo. Também não há dados sobre a eficácia das operações anteriores desse tipo no país, nem avaliação independente do resultado da política de segurança do candidato enquanto governador. Segue em aberto como as propostas que exigem emenda constitucional, como a redução da maioridade penal, seriam aprovadas, e não há reação registrada de adversários, de governadores ou das próprias Forças Armadas à proposta.