Um a cada cinco candidatos registrados para a eleição geral de outubro de 2026 declarou à Justiça Eleitoral patrimônio igual ou superior a R$ 1 milhão. Dos 20.530 registros computados até a noite de 17 de agosto, 3.816 postulantes estão nessa faixa, o equivalente a 18,6% do total e o maior percentual da série histórica. Na eleição geral anterior, em 2022, a proporção era de 14,2%, já considerada a correção pela inflação.
O prazo para o envio dos registros terminou às 19h de sábado, 15 de agosto, e no dia seguinte teve início o período de propaganda eleitoral. Para a Presidência da República, o Tribunal Superior Eleitoral oficializou 13 candidaturas, mesmo número do pleito anterior. Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, tenta o quarto mandato ao lado de Geraldo Alckmin, do PSB, e disputa com o senador Flávio Bolsonaro, do PL, que tem Alfredo Gaspar como vice. O campo de direita se divide ainda entre Renan Santos, do Missão, Romeu Zema, do Novo, e Ronaldo Caiado, do PSD. Completam a lista Clariana Barão, Edmilson Costa, Augusto Cury, Hertz Dias, Pablo Marçal, Rui Costa Pimenta, Samara Martins e Wilson Grassi.
A cobertura de centro concentrou-se no recorte patrimonial e o apresentou com ressalva metodológica explícita: a declaração de bens entregue ao Tribunal Superior Eleitoral e aos Tribunais Regionais Eleitorais não passa por auditoria, e muitos candidatos omitem informações, de modo que o número mede o que foi informado e não a riqueza efetiva. Nesse mesmo levantamento, o Partido Liberal lidera em termos absolutos, com 494 candidatos milionários, o equivalente a 30,4% dos nomes que lançou, incluindo o próprio Flávio Bolsonaro, que declarou R$ 8,2 milhões. Proporcionalmente, o PRTB aparece no topo do ranking, ainda que tenha registrado apenas 10 candidatos, seguido por três legendas do Centrão: PP, PSD e União Brasil. Por unidade da federação, as maiores proporções estão em Tocantins, com 30,3%, Mato Grosso, com 28,8%, e Santa Catarina, com 26,2%.
Os veículos de direita deram tratamento distinto ao mesmo momento eleitoral e priorizaram o guia da disputa presidencial, com a lista completa das chapas, os números de urna e a trajetória de cada candidato, além de destacar a fragmentação do campo conservador em quatro nomes que disputam eleitorado semelhante. Nessa cobertura, a informação patrimonial não é o eixo, e a leitura predominante à direita sobre o dado é a de que declarar bens é obrigação legal cumprida publicamente, que patrimônio formado na atividade privada antes do mandato não se confunde com enriquecimento no exercício do cargo, e que a ausência de auditoria enfraquece o próprio indicador. Até o fechamento desta reportagem, veículos de esquerda não haviam publicado sobre o levantamento; a leitura provável desse campo, a partir dos mesmos números, seria a de que o recorde expõe uma barreira de classe na disputa eleitoral, já que a renda média do brasileiro é de R$ 3.376 por mês e seriam necessários 24 anos e 8 meses guardando esse valor integralmente para acumular R$ 1 milhão.
Os dois lados convergem num ponto factual relevante: o total de candidaturas caiu 29,8% em relação a 2022, a primeira queda desde 2006, depois de altas consecutivas em todos os pleitos gerais desde então. O que separa as leituras é o significado dessa retração, encarada ora como perda de pluralidade, ora como enxugamento de uma máquina eleitoral inflada.
Ainda não se sabe o número final de candidaturas, porque há atraso nos sistemas da Justiça Eleitoral para computar todas as atualizações e 19 cadastros não estavam compilados no portal de dados abertos quando os dados foram baixados. Também não há dado oficial sobre o percentual de milionários na população brasileira que sirva de termo de comparação direta, nem detalhamento sobre a composição do patrimônio declarado. Por fim, permanece indefinida a situação de Pablo Marçal, que obteve liminar para voltar ao PRTB e registrar candidatura, mas segue declarado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo.