O Partido Liberal chega ao último fim de semana de convenções partidárias tentando resolver dois problemas ao mesmo tempo: costurar a reconciliação pública entre o senador Flávio Bolsonaro, oficializado candidato à Presidência, e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, e romper o isolamento de uma chapa que segue sem vice definido e sem coligação fechada. A convenção do PL no Distrito Federal, realizada neste domingo, 2 de agosto, virou o palco esperado para o primeiro encontro público entre os dois desde a crise que os afastou.
Os fatos que sustentam a cobertura são os mesmos em todos os veículos. Em 25 de julho, a convenção nacional do partido, em São Paulo, homologou a candidatura de Flávio ao Planalto. Michelle não compareceu, alegando cuidar do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília, e enviou um vídeo de apoio ao enteado. Antes disso, o senador havia gravado um pedido público de desculpas, respondido por ela também em vídeo. Aliados passaram então a articular um encontro presencial entre os dois, tratado como etapa final da reconciliação e como momento de definir que espaço a ex-primeira-dama terá na campanha. No sábado, 1º de agosto, aliadas anunciaram que Michelle aceitou disputar uma vaga no Senado pelo Distrito Federal.
Em paralelo corre a negociação da vice-presidência. A senadora Tereza Cristina, que resistia ao convite, reuniu-se com Flávio em 29 de julho e, no dia seguinte, indicou a aliados que aceita avançar nas conversas. A adesão dela, porém, depende da federação formada por PP e União Brasil, que pelas regras eleitorais precisa decidir em bloco e até agora mantém a neutralidade. Republicanos e Podemos também sinalizam ficar fora da disputa presidencial. O prazo legal para as convenções se encerra em 5 de agosto.
É na leitura desse quadro que a cobertura se divide. Veículos de direita enfatizaram a unidade do campo conservador: descreveram a reaproximação como sinalização de força que deve se converter em votos, destacaram o reforço de segurança para receber milhares de pessoas na convenção em Brasília e apresentaram os valores conservadores como elo natural entre o PL e legendas de perfil religioso, na tentativa de atrair um partido ligado a uma igreja evangélica e liberar a vaga de vice para uma economista. Nessa chave, a hesitação do Centrão é cautela eleitoral, não rejeição ao projeto.
Já a cobertura de centro deu peso maior ao isolamento político da candidatura. Relatou que o partido adiou a escolha do vice por não concluir as negociações, que cresceu a hipótese de uma chapa formada apenas por quadros do próprio PL e que desdobramentos de uma investigação da Polícia Federal envolvendo um banco azedaram a relação com a cúpula do PP. Também tratou a aparição conjunta de madrasta e enteado como cálculo de imagem para a campanha, e não como gesto espontâneo, e explicou o custo concreto do fracasso das alianças: menos tempo de propaganda gratuita em rádio e televisão. Até o momento, veículos de esquerda não publicaram cobertura própria sobre o episódio, de modo que o contraditório do outro lado do espectro não está representado nesta reunião de fontes.
Vários pontos seguem em aberto. Não se sabe se Michelle de fato compareceu ao evento no Distrito Federal, já que ela passou por atendimento médico no sábado por causa de uma crise de enxaqueca. Também não está definido se PP e União Brasil abandonarão a neutralidade, quem ocupará a vaga de vice na chapa presidencial e em que formato a ex-primeira-dama participará da campanha. As respostas dependem do que for decidido até 5 de agosto, quando termina o prazo das convenções.