O presidente da Argentina, Javier Milei, chamou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de “lixo careca” durante a convenção nacional do PL realizada no sábado, 25 de julho, em São Paulo. O evento oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. No dia seguinte, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, para transmitir o que o governo brasileiro classificou como repulsa às declarações.
O estopim, segundo o próprio Milei, foi a decisão de Moraes que barrou sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília por tentativa de golpe de Estado. Convidado de honra da convenção, o argentino discursou por cerca de trinta minutos, condenou o socialismo, disse que a receita da esquerda é destruir as contas públicas para ganhar eleições e afirmou que apenas Flávio Bolsonaro poderia “parar Lula” na eleição de outubro. Chamou o presidente brasileiro de presidiário e encerrou a fala com o bordão sobre a liberdade que virou sua marca. Horas antes do evento, foi recebido pelo governador de São Paulo no Palácio dos Bandeirantes e recebeu a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do estado.
Há convergência entre as fontes sobre o núcleo factual: o xingamento, o palco em que foi proferido, o gatilho da visita negada e o endosso explícito à candidatura de Flávio Bolsonaro. A cobertura de centro relatou o discurso em registro descritivo, reproduziu as citações mais duras entre aspas e informou de forma direta que Jair Bolsonaro está preso por tentativa de golpe de Estado, sem avançar sobre a reação do governo brasileiro. Veículos de direita deram peso maior ao contraste alegado pelo presidente argentino, lembrando o levantamento de que Lula recebeu ao menos dezesseis visitantes estrangeiros durante os 580 dias em que ficou detido em Curitiba, e trataram a decisão judicial como o fato que provocou a crise.
Foi também na cobertura de direita que apareceu a resposta oficial em detalhe. A nota do Itamaraty afirma não haver precedente de um presidente estrangeiro que, em território nacional, reúna agressões ao chefe de Estado, às instituições democráticas e ao Poder Judiciário, e classifica o episódio como especialmente lamentável por envolver um país com o qual o Brasil mantém 203 anos de amizade e que tem no Brasil o seu principal sócio comercial. A mesma cobertura registrou a avaliação de interlocutores do Itamaraty de que a presença de um chefe de Estado estrangeiro em ato político-partidário contra o governo local configura quebra de protocolo diplomático.
Nenhum veículo de esquerda integra este conjunto de fontes. A leitura predominante desse lado, a partir dos mesmos fatos, tende a enquadrar o episódio como interferência estrangeira na eleição brasileira e como pressão sobre o Judiciário, com ênfase no fato de que a ofensa atingiu justamente o ministro responsável pelo processo da tentativa de golpe e no risco de contaminar a relação com o maior parceiro comercial do país no bloco regional.
Permanecem em aberto pontos centrais do caso. O governo argentino não havia se manifestado oficialmente até o fechamento das reportagens, e não se sabe se haverá resposta de Buenos Aires ou novas medidas diplomáticas brasileiras além da convocação do embaixador. Também não estão detalhados os fundamentos e a data da decisão que barrou a visita a Jair Bolsonaro, nem se o presidente argentino pretende voltar ao Brasil durante a campanha eleitoral.