Um levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, conhecido como Diap, aponta que 448 dos 513 deputados federais pretendem disputar a reeleição no pleito de outubro. O porcentual, de 87,32%, é o maior da série histórica da entidade e supera o de 2022, quando 446 parlamentares tentaram renovar o mandato. Antes disso, os índices eram menores: 86,16% em 2010, 79,33% em 2014 e 75,43% em 2018. O número definitivo só será conhecido depois do registro oficial das candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE.
A cobertura de centro relatou que o teto pode ser ainda mais alto. Se os deputados indecisos e os 42 pré-candidatos ao Senado desistirem de subir para a Casa Alta, as tentativas de reeleição podem chegar a 495, algo próximo de 96% da Câmara. Os 65 parlamentares que hoje seguem outro caminho estão distribuídos entre disputas ao Senado, a governos estaduais, a mandatos de deputado estadual, a vagas de vice-governador e vice-presidente, além dos que decidiram não concorrer a nada.
As coberturas convergem no diagnóstico central: a Câmara deve ter renovação baixa na legislatura que começa em 2027. Também há acordo sobre as causas apontadas pelo estudo. A primeira é o orçamento impositivo e o crescimento das emendas parlamentares, que, segundo o diretor do Diap citado na cobertura, saltaram de algo entre 10 e 15 milhões de reais por deputado ao ano para cerca de 50 milhões. A segunda é o conjunto de vantagens de quem já tem mandato: prioridade na divisão dos recursos do fundo eleitoral, estrutura de gabinete, presença constante nas bases e maior visibilidade. A terceira é a mudança nas regras eleitorais, que limita o número de candidaturas por vaga e pressiona as legendas menores com o endurecimento da cláusula de barreira.
Veículos de direita enfatizaram o recorte numérico e o calendário: a comparação com 2022, o prazo das convenções partidárias e o contraste com o Senado, onde 34 dos 54 senadores em fim de mandato, ou 62,9%, buscam a reeleição, o que indica renovação maior na Casa Alta. Veículos de esquerda não haviam publicado sobre o levantamento até o fechamento desta reportagem. Pela chave de leitura que costuma orientar essa cobertura, o dado tenderia a ser tratado como sintoma de concentração de poder: o dinheiro público das emendas funcionando como ativo permanente de campanha e como barreira de entrada para novos nomes, sobretudo de partidos pequenos e de candidaturas sem estrutura.
A cobertura de centro registrou ainda a projeção do Diap sobre o desenho do próximo Congresso. A entidade espera bancadas maiores para União e PP, PT e PL, seguidos de Republicanos e PSD, com força da centro-direita e do centrão e manutenção do peso das bancadas informais, como a ruralista, a da segurança pública e a evangélica. A expectativa é que a legislatura de 2027 a 2030 reproduza, em grande medida, a atual.
O que ainda não se sabe é quantas dessas intenções vão virar candidatura de fato. O número só fecha depois das convenções partidárias e do registro no TSE. Nenhuma das reportagens detalha a metodologia do levantamento além da descrição geral de consultas a candidatos, dirigentes e arranjos políticos locais. Também não há, na cobertura, resposta dos partidos, dos parlamentares citados ou de especialistas em sistema eleitoral sobre o efeito das emendas na competição, nem avaliação independente sobre se o recorde de recandidaturas vai se converter, na prática, em taxa recorde de reeleição.