A disputa presidencial de 2026 ganhou dois lançamentos em três dias, ambos no campo da direita. No sábado, 25 de julho, o Partido Liberal formalizou em convenção nacional, em São Paulo, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Na segunda-feira, 27, foi a vez de o Partido Novo oficializar em Brasília a candidatura do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema.
A cobertura de centro relatou a convenção do PL em chave descritiva. O evento na Arena Pacaembu começou com atraso, teve discurso do presidente nacional do partido e terminou com a fala do senador, que se apresentou como continuador do legado do pai. O registro incluiu a presença do presidente da Argentina, Javier Milei, que discursou por cerca de trinta minutos contra o que chamou de ameaças do socialismo, e a exibição de um vídeo gerado por inteligência artificial com a imagem de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado e está impedido de se manifestar publicamente. O próprio vídeo avisava, logo no início, que não havia sido gravado pelo ex-presidente.
Veículos de direita enfatizaram o outro lançamento e o conteúdo programático do discurso. Zema definiu sua bandeira como estar contra o Partido dos Trabalhadores, prometeu privatizar todas as estatais, sem o que chamou de vaca sagrada, e defendeu uma nova reforma da Previdência, uma reforma administrativa e a revisão de programas sociais que, segundo ele, teriam muita fraude. Na segurança pública, propôs uma penitenciária na Amazônia para presos de alta periculosidade. O ex-governador também defendeu o impeachment dos ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, e disse responder com orgulho a um processo movido por Gilmar. Perguntado várias vezes se concederia indulto a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão, não se comprometeu: disse ser preciso passar uma borracha no tema dos atos de 8 de Janeiro e classificou o julgamento como político. O senador Flávio Bolsonaro e o governador Ronaldo Caiado já defenderam o indulto.
Até aqui, veículos de esquerda não haviam publicado cobertura própria dos dois lançamentos no material reunido, de modo que não há enquadramento desse campo a reportar nesta matéria.
Os dois relatos convergem em um ponto central: a direita chega ao ciclo eleitoral com mais de uma candidatura e com o ex-presidente fora do jogo por decisão judicial. Divergem no eixo que escolhem. Enquanto o registro de centro trata a convenção do PL como consolidação de um nome e detalha o espetáculo do evento, a cobertura de direita apresenta um segundo polo e expõe atritos reais no campo conservador. Zema era aliado de Flávio e afirmou ter ficado chocado com as revelações de que o senador teria pedido dinheiro ao dono do banco Master, Daniel Vorcaro, para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Depois de críticas vindas de parte da direita, reduziu as investidas e, no lançamento, não citou o adversário uma única vez.
Restam pontos em aberto. A dois meses e meio da eleição, Zema segue sem vice, admitiu ter conversado com o ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa sobre a vaga e diz que a decisão caberá ao partido até o fim do prazo das convenções, em 5 de agosto. Não há detalhamento sobre quais estatais seriam privatizadas, em que ritmo, nem sobre quais programas sociais seriam revistos e com base em qual evidência de fraude. Também não há, no material disponível, resposta dos ministros do Supremo citados nominalmente, nem reação do partido do governo às duas candidaturas.