O governo de coalizão da Alemanha, liderado pelo chanceler Friedrich Merz, anunciou em 2 de julho de 2026 um amplo pacote de reformas econômicas para tentar reaquecer a maior economia da Europa. Batizado de Programa para Recuperação e Emprego, o plano combina três frentes: corte de impostos, mudanças no sistema de aposentadoria e flexibilização das regras trabalhistas. O anúncio veio depois de semanas de impasse dentro da coalizão e representa uma das principais apostas de Merz desde que assumiu o cargo.
Há pontos que atravessam toda a cobertura sem controvérsia. A veículos de centro relataram, de forma factual, que o pacote prevê um corte de cerca de 10 bilhões de euros em impostos sobre a renda, com economia estimada de aproximadamente 600 euros por ano para uma família média. O sistema previdenciário passará a elevar gradualmente a idade efetiva de aposentadoria para 67 anos, acompanhando o envelhecimento acelerado da população. Na área trabalhista, o governo amplia a contratação por contratos de curto prazo e pretende acabar com a possibilidade de obtenção de atestados médicos por telefone, mecanismo adotado durante a pandemia. Parte do custo das medidas será compensada por uma tributação maior sobre as rendas mais elevadas, segundo o ministro das Finanças, Lars Klingbeil. Todos os relatos situam as reformas num cenário de baixo crescimento, perda de competitividade industrial e pressão da extrema direita, que lidera pesquisas antes das eleições regionais de setembro.
É na leitura das mudanças trabalhistas que a cobertura se divide. Veículos de direita enfatizaram a agenda pró-mercado: destacaram a redução da burocracia como um pedido antigo da indústria alemã, sufocada pelo excesso de regulamentação e por custos de produção elevados, e apresentaram o fim do atestado por telefone como resposta ao aumento das licenças médicas e à necessidade de elevar a produtividade. Nessa ótica, o alívio tributário e a desregulamentação são o caminho para acelerar o investimento privado e conter a crise de competitividade agravada pela crise energética, pelos juros altos na Europa e pela concorrência chinesa em setores como automóveis, siderurgia e química. Já uma leitura de esquerda tenderia a enfatizar o outro lado da balança: a ampliação de contratos de curto prazo e o endurecimento das licenças recaem sobre os trabalhadores, e entidades médicas alertam que a mudança nas regras de atestado pode ser catastrófica para o sistema de saúde. A Associação Alemã de Clínicos Gerais, citada na cobertura de centro, afirmou que a medida provocaria um congestionamento no atendimento. Sob esse prisma, o aumento da tributação sobre os mais ricos, embora bem-vindo, não compensaria a fragilização da proteção trabalhista.
Ainda restam pontos em aberto. Não está detalhado o cronograma de implementação de cada medida, nem quanto exatamente subirá a alíquota sobre as altas rendas para financiar o corte de impostos. Também não se sabe como as mudanças serão recebidas pelos sindicatos e se enfrentarão resistência no Parlamento. O efeito das reformas sobre o crescimento e sobre o avanço eleitoral da extrema direita nas eleições regionais de setembro permanece incerto.