A Justiça da Alemanha indiciou o cidadão ucraniano Serhii Kuznietsov, identificado inicialmente pela imprensa alemã como Serhii K., pela sabotagem dos gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2, no Mar Báltico, em setembro de 2022. Segundo a Promotoria federal alemã, o ex-comandante do Exército ucraniano, de 50 anos e natural de Kiev, liderou uma equipe de cúmplices que planejou e executou a destruição das tubulações que levavam gás russo à Europa. É o primeiro indiciamento formal pelo ataque, quase quatro anos depois das explosões.
De acordo com a acusação, o grupo alugou um veleiro na Alemanha, o Andromeda, partiu do porto de Wiek, na ilha de Rügen, e seguiu até as proximidades da ilha dinamarquesa de Bornholm, onde teria instalado cargas explosivas nos dutos a profundidades de até 80 metros. Os investigadores afirmam ter encontrado vestígios dos explosivos militares HMX e RDX na embarcação. Kuznietsov foi preso na Itália em agosto de 2025, resistiu por meses à extradição — chegando a entrar em greve de fome — e acabou transferido para a Alemanha, onde permanece em prisão preventiva em Hamburgo, à espera de julgamento. Ele responde por crime de guerra contra infraestrutura civil, além de provocar explosões e destruir infraestrutura pública.
A cobertura de centro, como a da RFI, relatou o caso com paridade de fontes: apresentou a versão da Promotoria alemã, segundo a qual a operação foi feita a pedido de autoridades ucranianas; a negação sistemática da Ucrânia; a reação do presidente Volodymyr Zelensky, que considerou prematuro comentar e disse não ter os detalhes do processo; e os argumentos da defesa. O advogado italiano do acusado, Nicola Canestrini, criticou duramente a acusação de crime de guerra, afirmando que ela não constava no mandado de prisão que embasou a extradição e teria sido acrescentada depois, com base em um conjunto incompleto de acusações.
Os veículos de esquerda, por sua vez, enfatizaram o constrangimento político da União Europeia diante de uma sabotagem possivelmente ligada a um aliado. Destacaram que Bruxelas evita associar oficialmente o governo Zelensky ao ataque, tratando o episódio como questão a ser resolvida pela via judicial, e que a própria Ucrânia não esconde satisfação com um golpe capaz de reduzir as receitas com que a Rússia financia sua guerra. Lembraram ainda que Moscou exige a identificação dos mandantes e já acusou Washington de ter dado a ordem, além de recordarem que o Nord Stream sempre foi criticado por aprofundar a dependência energética europeia em relação à Rússia.
A leitura mais próxima da direita enfatizaria a força das provas e o rigor do accountability institucional: os explosivos militares rastreados, o veleiro Andromeda e ligações telefônicas interceptadas em que o acusado teria se incriminado enquanto aguardava extradição na Itália. Nessa chave, a responsabilização individual conduzida pelos trâmites legais alemães, com prisão preventiva e julgamento em Hamburgo, é lida como o funcionamento correto das instituições diante de um ataque a infraestrutura estratégica — o Nord Stream 1 abastecia cerca de metade da demanda anual de gás natural da Alemanha antes da invasão russa.
O que ainda não se sabe: nenhuma fonte confirmou quem, na cadeia de comando ucraniana, teria ordenado a operação. A União Europeia não adotou posição oficial acusando a Ucrânia, e o próprio Kuznietsov nega envolvimento, sustentando que estava em outro local no momento da sabotagem. O desfecho depende do julgamento em Hamburgo, cuja data ainda não foi anunciada, e da resposta ao questionamento da defesa sobre a validade da acusação de crime de guerra.