O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou na quarta-feira, 5 de agosto de 2026, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como seu candidato a vice-presidente na disputa pelo Palácio do Planalto. O anúncio foi feito em Brasília, no último dia do prazo legal para a realização de convenções partidárias, e encerrou uma das negociações mais arrastadas da pré-campanha da oposição. Segundo o próprio candidato, a definição foi antecipada para evitar risco de judicialização sobre o cumprimento do prazo.
A chapa é o que o meio político chama de chapa pura: os dois nomes saem do mesmo partido, o PL. A solução interna veio depois que PP, União Brasil, Republicanos e Podemos decidiram pela neutralidade na corrida presidencial e recusaram coligação formal. O presidente do PL afirmou que o deputado já figurava como alternativa desde o lançamento da pré-candidatura, e que a tentativa de atrair outras legendas simplesmente não avançou.
O escolhido é deputado de primeiro mandato e ex-promotor de Justiça. Foi procurador-geral de Justiça de Alagoas, secretário estadual de Segurança Pública em duas passagens por governos de Renan Filho, hoje ministro dos Transportes, e disputou a prefeitura de Maceió em 2020, quando venceu o primeiro turno e perdeu o segundo. Ganhou projeção nacional como relator da comissão parlamentar mista de inquérito que investigou as fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.
A cobertura de centro tratou o anúncio pelo ângulo da negociação frustrada: descreveu o desfecho como consequência direta da recusa do centrão, registrou que o candidato prometia anunciar uma mulher para a vaga e listou as cotadas que ficaram pelo caminho, entre elas uma senadora do PP, uma ex-presidente da Caixa e uma deputada federal, todas barradas pelas próprias legendas. Veículos de direita deram mais peso à biografia do escolhido, detalhando a trajetória no Ministério Público, a atuação em comissões de segurança pública e o fato de ele ser signatário do requerimento de urgência pela anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro. Até o fechamento desta reportagem, veículos de esquerda não publicaram cobertura própria do anúncio, de modo que a leitura crítica da escolha, sobretudo sobre o uso do escândalo do INSS como bandeira eleitoral, não aparece no material disponível.
A divergência de enquadramento está na leitura política do resultado. Parte da cobertura apresentou a chapa pura como sinal de isolamento partidário, num cenário em que a campanha ficará sem o tempo de televisão e as inserções que uma coligação traria. Outra parte reproduziu a avaliação da própria campanha, de que os quadros mais influentes das siglas neutras, entre eles o presidente nacional de um dos partidos e o governador de São Paulo, caminham com a candidatura mesmo sem assinatura formal. O nome do vice também foi apresentado como peça ofensiva: o comando do partido afirma que ele é o melhor quadro para explorar as investigações sobre os desvios do INSS, que alcançaram o entorno do presidente Lula.
A ausência da ex-primeira-dama no palco do anúncio foi registrada por várias reportagens, num contexto de atrito recente com o enteado por espaço na campanha, atrito que veio a público em junho e foi remendado semanas depois. Horas após o evento, ela publicou nas redes sociais mensagem em que celebra a escolha, deseja vitória à chapa e agradece às mulheres que se colocaram à disposição para a vaga.
O que ainda não se sabe é como fica a candidatura ao Senado por Alagoas que o novo vice havia lançado na véspera, se as legendas que declararam neutralidade formalizarão algum apoio antes do início oficial da campanha e qual será o efeito prático da escolha de um homem sobre a resistência que o candidato enfrenta entre eleitoras. Também não há, no material disponível, resposta do governo ou de aliados do presidente às declarações que ligam a escolha do vice ao escândalo do INSS.