O Carter Center comunicou ao Tribunal Superior Eleitoral que não enviará missão de observação à eleição brasileira de outubro de 2026. Com a desistência, o pleito fica sem a única organização dos Estados Unidos que havia sido convidada pela corte para acompanhar a disputa. A entidade, fundada em 1982 pelo ex-presidente americano Jimmy Carter e por sua mulher, Rosalynn, acumula mais de cem missões de observação em cerca de quarenta países e esteve no Brasil em 2022, quando quatro especialistas trabalharam por dois meses acompanhando o processo de votação.
A razão apresentada é financeira. A cobertura de centro relatou que a organização passou meses tentando levantar os recursos necessários e esbarrou na crise de financiamento das agências internacionais de desenvolvimento e cooperação, agravada pelos cortes da atual administração americana na ajuda externa. A direção da entidade afirmou que quase 10% do orçamento anual evaporou com essas medidas, e estimativas publicadas por um jornal de Atlanta apontam perdas próximas de US$ 11 milhões, cerca de R$ 56,4 milhões. Historicamente, o centro é financiado por governos, fundações, empresas, doadores individuais e agências multilaterais, com peso relevante dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Irlanda, da Alemanha, da Bélgica e da União Europeia.
Houve ainda um segundo fator, sobre o qual todas as coberturas convergem: a União Europeia decidiu organizar uma missão própria, que participará pela primeira vez de uma eleição brasileira. Como parte expressiva das doações ao centro americano vinha de capitais europeias, vários governos redirecionaram recursos para a iniciativa do bloco. Regras internas da organização proíbem receber dinheiro, público ou privado, do país em que atua como observadora, o que impediu qualquer compensação local da perda.
Sem a entidade americana, a eleição deve ter como principais observadores internacionais a Organização dos Estados Americanos e a União Europeia. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e a União Interamericana de Organismos Eleitorais também devem enviar comitivas. União Africana, Liga Árabe e Parlamento do Mercosul foram convidados e não confirmaram. A outra organização americana presente em 2022, dedicada a sistemas eleitorais, sequer foi convidada, porque a corte avaliou que sua dependência da agência de desenvolvimento americana inviabilizaria a viagem.
A cobertura de centro deu ênfase ao ambiente político em torno da ausência: o presidente da corte eleitoral vem defendendo a interlocutores a ampliação do monitoramento externo para blindar o pleito de questionamentos, e no governo federal considera-se altamente provável uma ofensiva estrangeira contra a credibilidade da votação, receio que se acentuou depois da revelação, pela imprensa americana, de um plano de auxiliares do governo dos Estados Unidos para vir ao Brasil lançar dúvidas sobre a integridade do processo, com agenda prevista inclusive no tribunal. O Itamaraty negou os vistos em julho. Já os veículos de direita destacaram outro trecho do mesmo histórico: o relatório de 2022 da entidade, embora tenha registrado que os atores institucionais brasileiros demonstravam confiança na segurança das urnas, fez ressalvas ao combate à desinformação conduzido pela corte, apontando a ausência de arcabouço jurídico capaz de equilibrar liberdade de expressão e intervenção estatal, e recomendando que plataformas digitais não sejam responsabilizadas por conteúdo de terceiros, salvo descumprimento de ordem judicial no prazo. Até o momento, veículos de esquerda não haviam publicado cobertura própria sobre o episódio, o que deixa um ponto cego nesse lado do espectro.
O que ainda não se sabe: nenhuma fonte informou o tamanho, o custo ou o cronograma da missão da União Europeia que passa a ocupar o espaço; não há posição pública da corte eleitoral sobre buscar outra organização independente em substituição; não se sabe se União Africana, Liga Árabe e Parlamento do Mercosul confirmarão presença; e não foi divulgado se a entidade americana pretende retomar a captação de recursos para uma missão reduzida antes de outubro.