A federação União Progressista, que reúne União Brasil e Progressistas, entrou em rota de colisão consigo mesma no Ceará às vésperas do fim do prazo das convenções para a eleição estadual de 2026. No último domingo, o diretório estadual da federação, presidido pelo ex-deputado Capitão Wagner, aprovou o apoio à candidatura de Ciro Gomes, do PSDB, ao governo do estado. A chapa lançou o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio como vice e o próprio Wagner como candidato ao Senado. No mesmo prédio, porém, em convenções separadas, os dois partidos que compõem a federação tomaram a decisão oposta: declararam apoio à reeleição do governador Elmano de Freitas, do PT, candidato apoiado pelo presidente Lula.
A cobertura de centro relatou a mecânica do impasse com detalhe. As legendas estaduais, comandadas pelos deputados federais Moses Rodrigues, do União Brasil, e AJ Albuquerque, do Progressistas, ambos próximos do senador Camilo Santana e alinhados ao governo estadual, acionaram o Tribunal Regional Eleitoral do Ceará para anular a convenção da federação. O motivo é concreto e vai além do simbolismo: quem controla a federação administra o fundo partidário e o tempo de rádio e televisão que as siglas teriam na campanha. Os veículos de centro explicaram que federações, diferentemente das coligações, obrigam os partidos a atuar como um único ente por pelo menos quatro anos, o que coloca esses recursos sob a tutela da convenção estadual, hoje nas mãos de um adversário do governador.
O capítulo mais recente foi a manifestação da direção nacional da federação, apresentada por Wagner. O documento, assinado pelo presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, e pelo presidente do PP, o senador Ciro Nogueira, ratifica que a convenção estadual é a instância soberana para definir a posição no pleito, com prevalência sobre as decisões individuais dos partidos federados. A cobertura de centro destacou a ironia da situação: os dirigentes nacionais que respaldaram o apoio a Ciro são justamente os chefes partidários dos deputados estaduais que foram à Justiça pedir o contrário.
Veículos de direita enfatizaram a dimensão nacional da queda de braço. Para essa cobertura, a federação, associada nacionalmente ao candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, entrou na disputa cearense como parte de uma frente contra a hegemonia do PT no estado, ainda que Ciro seja um crítico contumaz do bolsonarismo e não vá retribuir apoiando Flávio. Essa cobertura também ressaltou o descontentamento da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro com o arranjo e a corrida de Flávio por tempo de mídia para se equiparar ao espaço de Lula. Já a cobertura de centro tratou o caso sobretudo como uma disputa jurídica interna sobre a validade das convenções.
Os veículos de esquerda, até o fechamento desta síntese, não deram destaque ao caso, o que caracteriza um ponto cego de cobertura sobre um episódio que envolve diretamente a reeleição de um governador aliado de Lula.
O desfecho depende do Judiciário. O TRE-CE incluiu a ação em sessão extraordinária, mas adiou o julgamento, que deve voltar à pauta em 3 de agosto. Ainda não se sabe qual candidato ficará com os recursos da federação, se a convenção estadual será mantida ou anulada, nem como fica a segunda vaga ao Senado nas duas chapas em disputa.