O Irã iniciou em 3 de julho de 2026, em Teerã, o funeral de Estado do líder supremo aiatolá Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro, aos 86 anos, em ataques dos Estados Unidos e de Israel que desencadearam a guerra contra a República Islâmica. O corpo foi exposto na Grande Mosalla, um vasto complexo religioso da capital, ao lado dos caixões de familiares que morreram no mesmo bombardeio, entre eles uma filha, um genro, uma nora e uma neta. As autoridades chamam o evento de 'o funeral do século' e esperam a presença de 12 a 20 milhões de pessoas só na capital.
As cerimônias devem durar de seis a sete dias e percorrer os principais locais sagrados do xiismo. Após Teerã, o cortejo seguirá para Qom e depois para as cidades iraquianas de Najaf e Karbala, antes do sepultamento marcado para 9 de julho em Mashhad, cidade natal do aiatolá, junto ao santuário do Imã Reza. Teerã foi transformada em uma fortaleza, com forte esquema de segurança, aeroporto parcialmente fechado e um feriado nacional decretado. Autoridades anunciaram delegações de cerca de 30 países, sobretudo vizinhos, incluindo Paquistão, China, Índia, Iraque e o ex-presidente russo Dmitri Medvedev. Nenhum líder europeu foi convidado.
Sobre esses fatos há amplo consenso entre os veículos. A divergência está no significado atribuído ao evento. A cobertura de centro, como a da BBC, da RFI e da CNN, relatou o funeral como uma operação política destinada a consolidar a transição de poder e projetar unidade do Estado, ouvindo analistas que ponderam que a mobilização em larga escala não resolve, por si só, as divisões sociais e econômicas do país. Veículos de direita enfatizaram o perfil repressivo de Khamenei, que governou por mais de três décadas reprimindo protestos estudantis, a contestação de 2009 e o movimento 'Mulher, Vida, Liberdade', desencadeado após a morte de Mahsa Amini em 2022; nessa leitura, as multidões que entoam 'morte aos Estados Unidos' e 'vingança' são vistas como mobilização orquestrada por uma teocracia cujo apoio popular se deteriorou com as sanções e a crise no custo de vida. Veículos de esquerda destacaram o custo humano dos ataques que mataram o líder e sua família, enquadrando o funeral massivo como afirmação de soberania de um povo submetido à agressão de potências ocidentais, e situando o episódio na escalada global da extrema-direita e nos conflitos em Gaza e na Ucrânia.
Em paralelo ao luto, a diplomacia avança. Negociadores dos Estados Unidos e do Irã tiveram avanços positivos em uma nova rodada de conversas indiretas em Doha, mediadas por Qatar e Paquistão, e concordaram em retomar as discussões após o funeral. As partes trataram da liberação de cerca de US$ 6 bilhões em ativos iranianos congelados no exterior e criaram um canal para registrar possíveis violações do cessar-fogo, em vigor desde 17 de junho. O presidente Donald Trump afirmou que as negociações sobre a desnuclearização do Irã 'estão indo bem', sem dar detalhes.
O que ainda não se sabe pesa sobre o futuro do regime. Não há confirmação sobre a aparição pública de Mojtaba Khamenei, filho e apontado sucessor do aiatolá, cercado por rumores de que teria ficado ferido no bombardeio que matou sua família. Também segue em aberto quem liderará a oração fúnebre, um papel de forte significado político e religioso na tradição xiita, e de que forma a transição de liderança se estabilizará em meio aos desafios sociais e econômicos que o país enfrenta.