O governo dos Estados Unidos avançou em duas frentes que atingem diretamente o Brasil, e a cobertura desta semana tratou as duas como partes de um mesmo movimento. De um lado, circulam novos sinais de Washington de que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes pode ser alcançado por sanções da Lei Magnitsky, o instrumento norte-americano usado contra autoridades estrangeiras acusadas de violação de direitos humanos ou de corrupção. De outro, um memorando assinado pela Casa Branca em 12 de agosto autoriza empresas privadas norte-americanas a executar operações cibernéticas contra organizações criminosas transnacionais estrangeiras, sob direção e controle do governo dos Estados Unidos.
O conteúdo do memorando é o ponto em que as coberturas convergem quanto aos fatos. O documento prevê duas categorias de ação. A primeira é a vigilância cibernética, definida como acesso a sistemas sem autorização do proprietário ou operador, com a intenção de permanecer sem detecção. A segunda, chamada de operações de efeito, permite manipular, interromper, negar acesso, degradar ou destruir sistemas de informação, redes e infraestrutura física ou virtual controlada digitalmente, incluindo sistemas industriais e controladores embarcados. O próprio texto cria uma categoria especial para operações capazes de provocar mortes ou de atingir, segundo o direito internacional, o patamar de uso da força, que diretores comuns do programa não podem autorizar.
O contexto brasileiro veio antes. Washington classificou o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas, primeiro na categoria de terroristas globais especialmente designados e depois na lista de organizações terroristas estrangeiras. Em julho, o Departamento do Tesouro descreveu o PCC como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental e passou a sancionar pessoas e empresas sediadas em São Paulo acusadas de movimentar recursos do grupo. Ainda em julho, o chanceler Mauro Vieira advertiu que essa classificação poderia abrir caminho para medidas extraterritoriais dos Estados Unidos e, no limite, para justificativas de emprego de força em território brasileiro.
É na leitura desses fatos que a cobertura se divide. Veículos de esquerda enfatizaram o precedente de soberania: a combinação de poder estatal, capacidade tecnológica privada, atuação clandestina e projeção extraterritorial permitiria que um Estado projetasse poder dentro da infraestrutura de outro país antes mesmo que a sociedade atingida soubesse do início da operação, e o crime organizado seria apenas o objeto imediato de um desenho estratégico mais amplo, com risco reconhecido ao processo eleitoral. Veículos de direita enfatizaram o outro lado da equação, tratando os recados norte-americanos a Alexandre de Moraes como consequência de abusos atribuídos a decisões do próprio ministro e apresentando a Lei Magnitsky como mecanismo de responsabilização de autoridades que escapam ao controle interno, num bloco de cobertura que reúne ainda investigações da Polícia Federal sobre o entorno do presidente Lula e o início da campanha eleitoral. Veículos de centro não cobriram o episódio até o momento, o que deixa a comparação restrita a dois enquadramentos opostos, sem uma narração factual intermediária.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há confirmação pública de que qualquer sanção da Lei Magnitsky tenha sido formalizada contra o ministro, nem detalhamento do teor exato dos recados atribuídos ao governo norte-americano. Também não há evidência pública de que o Primeiro Comando da Capital ou o Comando Vermelho tenham sido enquadrados na categoria específica exigida pelo memorando, nem de que alguma operação cibernética contra eles tenha sido autorizada. Igualmente indefinidas seguem as medidas concretas que o governo brasileiro pretende adotar em resposta ao alerta feito pelo Itamaraty em julho.