A Casas Bahia protocolou na noite de domingo, 16 de agosto de 2026, um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo, com dívidas de R$ 17,3 bilhões e 28 mil credores, no que a própria companhia descreveu como a pior crise desde a fundação, há 74 anos. Dias antes, com atraso, a varejista havia divulgado prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre, resultado 18 vezes maior que o registrado no mesmo período do ano anterior. No pregão seguinte ao pedido, as ações tiveram a negociação suspensa várias vezes diante da oscilação e fecharam em baixa de 33%, cotadas a R$ 0,44.
Em paralelo ao processo judicial, a companhia começou a montar um financiamento conhecido pela sigla DIP, do inglês devedor em posse, modalidade de crédito concedida a empresas já em recuperação judicial para bancar despesas correntes como salários e pagamento a fornecedores. A cobertura de centro foi a primeira a revelar que fundos especializados nesse tipo de operação procuraram a rede para verificar o interesse em avançar, e que a cifra em discussão é de R$ 1 bilhão. Essa mesma cobertura ligou a operação à dificuldade de repor mercadorias: os dias de estoque caíram de 95, em 31 de março, para 75, em 30 de junho, e a companhia informou que a recomposição ficou abaixo do planejado.
Veículos de direita detalharam a anatomia da dívida e o argumento apresentado ao juízo. A empresa atribui a crise à deterioração das condições econômico-financeiras do país, com destaque para a alta da Taxa Selic desde 2021, à inflação que atinge a renda das famílias mais pobres e ao avanço de plataformas internacionais como Amazon e Mercado Livre. O ponto é sensível porque a operação é estruturalmente dependente do carnê: o crediário responde por 15,9% das vendas e a carteira somou R$ 6,3 bilhões entre abril e junho. A mesma cobertura registrou a ponderação de analistas de que o cenário macroeconômico é decisivo para o varejo, mas que a governança e a gestão da própria companhia entram na conta, já que a dívida se acumulou trimestre após trimestre mesmo com desemprego em patamares baixos.
Há convergência sobre o tamanho do ajuste já feito. A rede fechou 298 lojas, 30% do total, e demitiu quase 3 mil funcionários, 10% do efetivo. As dívidas quirografárias, sem garantia real, somam R$ 16,4 bilhões, e as trabalhistas, R$ 754,5 milhões. Entre os maiores credores estão a Zurich Minas Brasil Seguros, com R$ 1,97 bilhão, o fundo IBCB-AF01, com R$ 1 bilhão, e fornecedores de eletroeletrônicos como Samsung, Electrolux, Whirlpool, LG e Motorola, todos com centenas de milhões a receber. Bradesco, Banco do Brasil e Itaú também aparecem na lista. O pedido engloba outras nove empresas do grupo, incluindo a fabricante de móveis Bartira, e em 2024 a companhia já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial, então com dívidas de R$ 4,1 bilhões.
Até o momento, veículos de esquerda não publicaram análise própria do caso. Com isso, ficou fora do noticiário disponível o ângulo do impacto sobre os quase 3 mil demitidos, sobre a posição dos créditos trabalhistas na fila de 28 mil credores e sobre o efeito social do juro alto no acesso das famílias de menor renda ao consumo por meio do crediário.
Ainda não se sabe se o empréstimo de R$ 1 bilhão será efetivamente fechado, com quais fundos e bancos e a que custo, nem quando o juízo aceitará o processamento da recuperação, marco a partir do qual as cobranças ficam suspensas por 180 dias, prorrogáveis por igual período. Também não há detalhamento da estratégia digital anunciada pela direção, que citou reduzir canais próprios caros em favor de marketplaces parceiros sem explicar como, nem definição sobre novos fechamentos de lojas caso o cenário econômico piore. Falta ainda esclarecer o tratamento que será dado aos clientes com garantia estendida contratada e aos carnês em aberto.