O primeiro debate entre candidatos à Presidência da República na eleição de 2026 foi realizado na noite de domingo, 23 de agosto, em São Paulo, e ficou marcado menos pelo que foi dito no palco do que pelos púlpitos vazios. Dos seis presidenciáveis convidados, apenas três compareceram: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Faltaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo). Somados, os três que subiram ao palco reúnem cerca de 10% das intenções de voto, no que a cobertura descreveu como o confronto mais esvaziado desde 1989.
As justificativas das ausências são conhecidas e não foram contestadas em nenhuma vertente da cobertura. A campanha de Lula avaliou que o formato o colocaria como alvo concentrado dos adversários e que o material do embate seria reaproveitado nas redes sociais; o presidente concedeu, no mesmo horário, uma entrevista gravada a uma emissora concorrente. Flávio Bolsonaro condicionara sua presença à de Lula, sob o argumento de que, sem o petista, viraria o principal alvo. Zema desistiu na manhã de domingo, alegando que a transferência da data de 16 para 23 de agosto só havia sido aceita na expectativa de que Lula participasse. Augusto Cury chegou a anunciar desistência na porta dos estúdios, em protesto pelas ausências, e voltou atrás minutos depois.
A cobertura de centro concentrou-se na mecânica e nos critérios do encontro. Dos 13 candidatos registrados no Tribunal Superior Eleitoral, seis foram convidados, e a Lei 9.504/1997 só obriga o convite a partidos com pelo menos cinco representantes no Congresso Nacional, o que não é o caso do Missão nem do Novo. Essa cobertura também registrou que Lula é o único dos convidados que se define como de esquerda e que a última pesquisa Datafolha citada apontava 39% para ele e 33% para Flávio Bolsonaro. Uma checagem factual das falas identificou exageros e imprecisões entre os presentes: a afirmação de Caiado de que a Amazônia estaria 100% comandada pelo PCC contrasta com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que aponta presença de facções em 45% dos municípios da Amazônia Legal, e a de Cury de que 95% dos jovens não aprendem matemática difere do dado oficial de 91,5% fora do nível adequado.
Veículos de direita deram ao episódio o enquadramento de fuga do contraditório. A ausência foi tratada como recusa a prestar contas, com ênfase nas apurações que cercam os dois líderes: os inquéritos no Supremo Tribunal Federal envolvendo Fábio Luís Lula da Silva e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, de um lado, e o pedido de US$ 24 milhões feito por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro, de outro. Nessa leitura, o encontro escancarou que os favoritos preferem campanha controlada a escrutínio público. Caiado chamou os ausentes de fujões e disse que deveriam ter o registro cassado; Renan Santos levou ao palco fraldas com os nomes de Lula e de Flávio e os classificou como criminosos e covardes.
Veículos de esquerda não aparecem no conjunto de fontes reunido para esta cobertura, o que deixa sem contraponto direto a justificativa da campanha petista sobre o formato e sobre o critério de convite adotado pela organização, definido publicamente como relevância política. A repercussão dentro do próprio jornalismo virou assunto: a apresentadora Paula Valdez afirmou ao vivo se sentir desrespeitada como jornalista, citando meses de reuniões com as equipes de campanha para definir as regras, e a comentarista Deysi Cioccari sustentou que quem pede permissão para governar por quatro anos deveria se expor ao contraditório.
O que ainda não se sabe é se as ausências vão se repetir. Não há confirmação formal de Lula nem de Flávio Bolsonaro para os próximos encontros, e a expectativa relatada é de que o presidente priorize os debates de maior audiência às vésperas do primeiro turno. Também não há medição sobre o efeito do episódio nas intenções de voto, e cientistas políticos ouvidos avaliam que o eleitorado dos dois líderes está consolidado, com efeito maior na disputa pela terceira posição. Nenhuma manifestação da Justiça Eleitoral foi registrada sobre a cobrança de cassação de registro feita no palco. O próximo debate presidencial está marcado para 14 de setembro, e o primeiro turno, para 4 de outubro.