O primeiro debate entre presidenciáveis das eleições de 2026, realizado no domingo, 23 de agosto, terminou marcado menos por quem subiu ao palco do que por quem decidiu não ir. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, não compareceu e ainda assim se tornou o principal alvo dos ataques de Ronaldo Caiado, do PSD, Augusto Cury, do Avante, e Renan Santos, do Missão. O senador Flávio Bolsonaro, do PL, também ficou de fora, por receio de se transformar no foco das críticas dos adversários, e só foi lembrado no último bloco, quando os concorrentes citaram sua ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro e o caso batizado de Dark Horse, referência ao filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Romeu Zema, do Novo, avisou que não participaria e foi simplesmente ignorado pelos rivais; nos bastidores, sua ausência foi lida como sinal de que ele não levaria a candidatura adiante.
Sobre o essencial, as coberturas disponíveis convergem. A cobertura de centro relatou que o tom já estava dado antes do início: Renan Santos chegou com duas fraldas estampando os nomes de Flávio Bolsonaro e do presidente, chamando ambos de criminosos; Caiado cobrou a ausência dos dois adversários que lideram as pesquisas de intenção de voto; e Cury desistiu de participar e, em seguida, desistiu de desistir. Ninguém contesta que o debate foi organizado em parceria entre emissoras de televisão e veículos de imprensa, nem que o presidente concedeu, no mesmo horário, uma entrevista a outra emissora, o que virou munição imediata no palco.
No confronto, os ataques mais duros couberam a Renan Santos, que aparece com 4% das intenções de voto no levantamento do Datafolha divulgado na sexta-feira, 21. Ele evocou o mensalão e o petrolão, chamou o presidente de canalha, bêbado e safado e questionou quem vota no petista, poupando apenas parte do eleitorado que recebe Bolsa Família. Cobrou ainda perguntas sobre o filho mais velho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e sobre o Banco Master, e responsabilizou governos petistas no Ceará e na Bahia por não enfrentarem o crime organizado. Caiado, com 5% na mesma pesquisa, concentrou-se na redução do poder de compra das famílias, na omissão que atribui ao governo federal diante das facções e na falta de explicações de Flávio Bolsonaro: "O primeiro candidato tem o Dark Horse, e o Lula tem o Dark Lobby", resumiu. Cury adotou tom de palestrante, culpou o governo pelo que chamou de caos educacional, defendeu ajustes no Bolsa Família e poupou o senador das críticas.
A divergência está no que cada cobertura acrescenta ao redor das falas. Veículos de direita enfatizaram a dimensão de prestação de contas e ampliaram o contexto factual, informando que a instituição financeira citada no palco é alvo de operação da Polícia Federal desde junho, que Lulinha é investigado por suspeita de tráfico de influência, e registrando as propostas de segurança pública, a crítica ao Itamaraty e a defesa de condicionar o Bolsa Família à formalização do trabalho. Esses mesmos veículos qualificaram a participação do candidato do Missão como uso do debate para lacração, único juízo editorial explícito do material. A cobertura de centro reproduziu o mesmo relato de forma mais seca, sem esse contexto e sem avaliar o desempenho dos participantes. Veículos de esquerda não cobriram o encontro no conjunto analisado; o ângulo que esse campo costuma explorar, o peso das acusações sem apuração concluída e o tratamento dado aos beneficiários do Bolsa Família no discurso dos adversários, ficou fora do que está disponível.
O que ainda não se sabe é considerável. Nenhum dos textos traz resposta do presidente, de Flávio Bolsonaro ou de Romeu Zema às acusações feitas no palco. Não há verificação independente das alegações sobre o INSS, sobre o Banco Master ou sobre o destino dos recursos associados ao caso Dark Horse. Também não se sabe se Zema mantém a pré-candidatura, nem quando ocorrerá o próximo confronto: a única indicação é a do senador, que afirmou só comparecer a debates em que o petista confirmar presença.