Dois bilionários brasileiros ampliaram o financiamento de campanhas legislativas nas eleições de 2026. O cineasta e documentarista João Moreira Salles transferiu R$ 100 mil para Ivaneide Bandeira Cardozo, conhecida como Neidinha Suruí, candidata do PSB ao Senado por Rondônia. O empresário Rubens Menin, fundador da MRV Engenharia e do Banco Inter, destinou R$ 50 mil a José Eduardo da Costa, o Eduardo Costa, candidato a deputado estadual pelo União Brasil em Minas Gerais.
Até o momento, apenas um veículo cobriu o caso, relatando que os valores foram extraídos do sistema de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo essa cobertura, foram analisadas mais de 10 mil doações declaradas a partir de 30 de julho por mais de 9 mil pessoas físicas, com auxílio de inteligência artificial sob supervisão humana. A informação está pública porque a legislação eleitoral obriga candidatos a declarar a origem de cada recurso recebido, com identificação do doador.
O peso relativo das duas transferências chama atenção. A doação de Moreira Salles corresponde à totalidade dos recursos recebidos por Neidinha Suruí até a atualização mais recente do sistema. A candidata declarou patrimônio de R$ 571 mil, distribuído entre dinheiro em espécie, um carro e uma residência. Doador e candidata já tinham ligação anterior: ela participou da promoção de debates sobre o documentário "Minha Terra Estrangeira", dirigido por Moreira Salles e lançado em 2025, que acompanha a ativista Txai Suruí, filha da candidata, e o líder indígena Almir Suruí, ex-marido dela, durante campanha a deputado federal pelo PDT em 2022.
No caso mineiro, os R$ 50 mil de Menin correspondem a 20,8% de tudo o que Eduardo Costa arrecadou até agora. Jornalista e redator de 69 anos, ele disputa sua primeira eleição e declarou patrimônio de R$ 5,55 milhões, entre imóveis, um carro e aplicações de renda fixa. Sua prestação de contas registrava R$ 240 mil, sendo R$ 200 mil de pessoas físicas e R$ 40 mil de recursos próprios.
Nenhuma das duas doações é isolada. Em 27 de agosto, Menin já havia transferido R$ 50 mil a Mário Henrique da Silva, o Mário Henrique Caixa, candidato à reeleição como deputado estadual em Minas Gerais pelo PV, partido que integra federação com PT e PCdoB. Com isso, o empresário soma R$ 100 mil em contribuições em 2026, ambas ao Legislativo mineiro e a legendas que não estão coligadas entre si. Moreira Salles, por sua vez, havia doado R$ 50 mil em 21 de agosto a Abidan Henrique da Silva, engenheiro de 29 anos e vereador de Embu das Artes, candidato a deputado estadual em São Paulo pelo PSB, cuja campanha arrecadara R$ 352,95 mil, com R$ 200 mil vindos do próprio partido. O cineasta acumula R$ 150 mil em 2026, todos para candidatos do PSB.
Os dois nomes vêm de grupos empresariais de grande patrimônio. Moreira Salles é herdeiro da família que tem origem no Unibanco, banco incorporado ao Itaú, e tem fortuna estimada pela Forbes em US$ 5,1 bilhões. Menin construiu a sua na construção civil e em serviços financeiros e aparece na lista da Forbes de 2026 com patrimônio estimado em R$ 9,2 bilhões.
Como o episódio tem cobertura de fonte única, ainda não há contraste editorial entre veículos de campos ideológicos diferentes sobre o significado dessas transferências, e o leitor recebe o dado sem a disputa de interpretação que costuma acompanhar o tema do financiamento eleitoral.
O que ainda não se sabe é o essencial do contexto. Nenhum dos doadores explicou publicamente os critérios de escolha das candidaturas, e nenhum dos candidatos comentou o recebimento. Também não está esclarecido se haverá novos repasses até o fim do período de arrecadação, nem como esses valores se comparam ao que cada campanha deve receber do fundo eleitoral. As prestações de contas seguem sendo atualizadas no sistema do Tribunal Superior Eleitoral, e os números podem mudar até a apuração final.