O governo brasileiro entregou aos Estados Unidos, em 1º de julho de 2026, um documento de 29 páginas contestando a proposta de tarifaço de 25% sobre produtos do Brasil sugerida pelo Representante Comercial norte-americano, o USTR. O texto, assinado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, sustenta que a medida prejudicaria as próprias empresas e consumidores dos Estados Unidos. A proposta do USTR é resultado de uma investigação iniciada há cerca de um ano, no governo de Donald Trump, com base na Seção 301 da legislação comercial americana, que apura supostas práticas desleais do Brasil no comércio.
A cobertura de centro relatou os argumentos centrais do documento de forma factual. Segundo o Itamaraty, amplas tarifas sobre produtos brasileiros imporiam custos reais à economia americana. O ministro Vieira lembrou que 43 empresas e associações comerciais dos Estados Unidos pediram a exclusão de produtos de quaisquer tarifas, alegando ausência de substitutos nacionais e risco de repasse de custos a consumidores e indústrias americanas. O governo brasileiro também afirmou que a tarifa, se adotada, reduziria o espaço para o diálogo bilateral em vez de incentivá-lo.
Um dos pontos centrais da resposta é a defesa do Pix. O USTR alega que o sistema de pagamentos discrimina empresas americanas, mas o Brasil rebate que Google Pay Brasil e Visa, ambas dos Estados Unidos, atuam dentro do Pix. O documento lembra ainda que o próprio Federal Reserve criou uma infraestrutura pública de pagamentos, o FedNow. O texto também contesta o uso, pelo USTR, de decisões do Supremo Tribunal Federal contra plataformas digitais sediadas nos Estados Unidos, sustentando que empresas que operam em qualquer mercado estrangeiro estão sujeitas às leis locais.
É aqui que os enquadramentos divergem. Veículos de esquerda destacaram que a ameaça do tarifaço teria sido politizada por autoridades americanas para interferir nas eleições brasileiras de outubro, e apresentaram o Pix como uma conquista de soberania financeira e inclusão que desafia o lucro de gigantes como MasterCard, Visa e WhatsApp Pay, que cobram pelo serviço que o Pix oferece de graça. Nesse enquadramento, as decisões do STF surgem como exercício legítimo de soberania sobre empresas estrangeiras. Veículos de direita tenderiam a enfatizar o argumento pragmático de preservação da relação comercial e o apelo às próprias associações empresariais americanas, ressaltando o custo econômico das tarifas e o risco à competitividade, mais do que a retórica de soberania.
O documento brasileiro ainda refutou acusações do USTR sobre combate à corrupção, desmatamento ilegal, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e os acordos comerciais com México e Índia. O governo citou avaliações da OCDE para defender seu sistema de combate à corrupção e afirmou que a tarifa sobre etanol se aplica igualmente a todos os países sem acordo preferencial, sem discriminar os Estados Unidos.
O que ainda não se sabe é como o USTR e o governo americano responderão formalmente aos argumentos brasileiros, se o tarifaço de 25% será efetivamente implementado e em que prazo, e qual será o impacto concreto sobre setores exportadores brasileiros caso a medida avance. Também permanece em aberto se haverá espaço para negociação bilateral antes de uma eventual entrada em vigor das tarifas.