Brasil e Estados Unidos marcaram para segunda-feira, 31 de agosto, uma reunião virtual destinada a retomar as negociações sobre as tarifas que Washington aplica a produtos brasileiros. O encontro está previsto para as 14h30, no horário de Brasília, e reúne o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Um integrante do Itamaraty também deve participar. Nem Lula nem Donald Trump estarão na mesa: a conversa é técnica.
O agendamento veio na esteira do telefonema entre os dois presidentes na sexta-feira, 21 de agosto, que durou cerca de uma hora e vinte minutos. Segundo o Palácio do Planalto, Lula repetiu ao interlocutor americano que as tarifas contra o Brasil são infundadas e prejudicam os dois países, e ouviu que seria bom que as equipes voltassem a conversar o quanto antes. Logo depois da ligação, Greer procurou o ministro brasileiro para organizar a nova rodada.
A cobertura de centro relatou que a iniciativa do reencontro partiu do lado americano e registrou que, dentro do governo brasileiro, há pouca expectativa de avanço concreto já nesta reunião, ainda que a reabertura do canal seja avaliada como ganho em si. Esse mesmo registro lembra que Lula e Trump devem se ver em Nova York na segunda quinzena de setembro, durante a Assembleia-Geral da ONU.
Os três relatos convergem nos fatos duros. As tratativas estavam suspensas desde 14 de julho. No dia seguinte, os Estados Unidos anunciaram uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e, em 23 de julho, acrescentaram uma cobrança de 12,5%, baseada em acusações de falhas no controle de importação de mercadorias feitas com trabalho forçado. O Itamaraty avalia que as duas alíquotas podem ser cumulativas, o que levaria a sobretaxa total de parte dos produtos a 37,5%. Os números do Ministério do Desenvolvimento também são consenso: 8,6 mil empresas estão expostas, 52,7% da pauta exportadora ao mercado americano segue sem sobretaxa e 47,3% está sujeita a algum encargo adicional. As exportações brasileiras aos Estados Unidos caíram 12,2% entre janeiro e julho, e a retração chegou a 31,5% nos itens mais taxados. O próprio ministro avalia que o governo americano dificilmente retirará todas as tarifas agora, e por isso a prioridade brasileira é ampliar a lista de exceções e reduzir o número de setores alcançados.
A divergência aparece no enquadramento. Veículos de esquerda destacaram a dimensão política da sobretaxa, tratando a justificativa apresentada por Washington como frágil e ligando o caso brasileiro a uma escalada comercial mais ampla conduzida pelo governo americano. Nessa linha, ganhou espaço a decisão do Canadá, que anunciou na terça-feira, 25 de agosto, tarifas de retaliação de 15% a 50% sobre cerca de 700 produtos americanos, alcançando aproximadamente US$ 20 bilhões em mercadorias, com vigência prevista para 8 de setembro, além de um pacote de 7,5 bilhões de dólares canadenses para pequenas e médias empresas e trabalhadores atingidos. O primeiro-ministro Mark Carney disse que a resposta é dólar por dólar. A leitura implícita é que existe alternativa à espera por concessões, e que o Estado deve amparar quem perdeu mercado.
Veículos de direita não registraram o encontro até o momento nesta cobertura, e nenhum artigo de direita integra o conjunto analisado. A leitura provável desse campo, a partir dos mesmos fatos, colocaria a perda do exportador no centro: mais de um mês de canal fechado desde 14 de julho, queda de 12,2% nas vendas ao maior mercado consumidor do mundo e milhares de empresas sem previsibilidade. O critério de sucesso seria quantitativo, medido pelo número de setores retirados da sobretaxa e pelo prazo, com desconfiança em relação a retaliação tarifária, que encarece insumos no próprio país que a aplica.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há confirmação pública do lado americano sobre a pauta da reunião, nem definição de quais setores o Brasil pedirá que entrem na lista de exceções. Também não está esclarecido se as alíquotas de 25% e 12,5% serão efetivamente tratadas como cumulativas, nem que evidências sustentam a acusação de trabalho forçado que embasa a segunda cobrança. Não há prazo para uma eventual decisão, e o encontro entre os dois presidentes em Nova York permanece sem data e sem agenda divulgada.