O Itamaraty alertou o Congresso Nacional para o risco de que a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas seja usada para justificar ações extraterritoriais em território brasileiro. Em cartas assinadas pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em resposta a requerimentos de deputados federais, o governo afirma que a medida pode ter impactos relevantes sobre a soberania nacional, a economia e os direitos de cidadãos e empresas do país.
Segundo os documentos, a legislação antiterror norte-americana concede ampla margem de manobra e poderia fundamentar sanções econômicas, bloqueio de ativos, restrições migratórias, processos penais e, em casos extremos, o uso da força militar dos Estados Unidos no Brasil. O chanceler ressaltou que não houve comunicação formal de Washington antes da decisão e que a classificação não traz benefícios concretos para a cooperação bilateral no combate ao crime organizado, ao misturar dois fenômenos distintos na lei brasileira: o crime organizado e o terrorismo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se opõe à medida.
A cobertura de centro, como a de Notícias ao Minuto e do portal Planalto, relatou os fatos de forma direta: os Estados Unidos classificaram as facções em maio, o Departamento do Tesouro sancionou em 1º de julho duas pessoas e três empresas brasileiras apontadas como ligadas ao PCC, e o Itamaraty respondeu a deputados alertando sobre a soberania. Veículos de esquerda, como o Opera Mundi, enfatizaram o caráter unilateral da decisão americana, o risco de militarização da agenda regional e a ameaça de ingerência sobre instituições brasileiras nos campos financeiro, migratório e penal. Veículos de direita não cobriram diretamente este conjunto de reportagens, mas, segundo as próprias matérias, a oposição de direita elogiou a decisão dos Estados Unidos e acusou o governo Lula de leniência no combate às facções, em meio à aproximação das eleições presidenciais de outubro.
O episódio se soma a outras tensões entre os dois países. A administração Trump deve decidir até 15 de julho se aplicará sobretaxa de 25% a produtos brasileiros, após investigação sobre supostas práticas comerciais desleais, acusações que o governo brasileiro rejeita.
Ainda não se sabe se os Estados Unidos pretendem, de fato, adotar qualquer ação de força em território brasileiro, nem quais serão os próximos passos diplomáticos do Brasil, que até agora não enviou nota oficial sobre o tema. Também permanece indefinido o alcance das novas sanções financeiras e como elas afetarão empresas e cidadãos sem vínculo comprovado com as facções.