Brasileiros que vivem em Nova Jersey afirmam que podem deixar de votar no primeiro turno da eleição presidencial brasileira, marcado para 4 de outubro, por medo de operações do ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos. O receio levou o Consulado-Geral do Brasil em Nova York, responsável pelos eleitores de Nova York, Nova Jersey e Filadélfia, a escolher um complexo educacional no bairro do Queens como posto de votação. O local fica relativamente distante de Manhattan e de Newark, uma das cidades de Nova Jersey com maior presença brasileira, mas tem estrutura que permite organizar as filas dentro dos prédios, sem espera na rua.
Em nota, o consulado afirmou que suas próprias instalações não comportariam o fluxo de quase 50 mil eleitores da região e que a alternativa evita a formação de filas ao longo das ruas, oferecendo um espaço confortável e seguro. A Secretaria de Relações Internacionais da Prefeitura de Nova York e a Polícia de Nova York participaram do mapeamento do endereço. A escolha se apoia numa regra jurídica específica: agentes do ICE não podem entrar em áreas privadas, como escolas e residências, sem mandado judicial assinado por um juiz, e por isso a maior parte das detenções ocorre em locais públicos. A cidade e o estado de Nova York, administrados por democratas, adotam políticas de santuário e não colaboram com as medidas federais de repressão migratória.
Os dois lados da cobertura convergem nos números e no calendário. O Itamaraty estima cerca de 2 milhões de brasileiros morando nos Estados Unidos, enquanto o Tribunal Superior Eleitoral registra por volta de 265 mil eleitores aptos a votar no país. Entre o fim de junho e o início de julho, o Brasil enviou ao Departamento de Estado americano a relação de todos os postos de votação em território dos Estados Unidos, que incluem, além de Nova York, cidades como Atlanta, Boston, Chicago, Dallas, Houston, Los Angeles, Miami, Orlando, São Francisco e Washington. O Departamento de Estado avisou que a polícia americana não será responsável por garantir a ordem pública em postos instalados fora dos consulados, encargo que ficará com o Brasil.
O relato do cotidiano também é comum às duas coberturas: nas cidades onde as operações se intensificaram, imigrantes dizem que evitam sair de casa durante o dia, pedem comida por aplicativos de entrega para não frequentar restaurantes e acompanham grupos de WhatsApp criados para avisar sobre a presença de agentes.
As ênfases divergem. Veículos de esquerda destacaram a responsabilidade do governo do republicano Donald Trump pela repressão migratória e trataram o recuo dos eleitores como consequência direta dessa política, apresentando o resultado de 2022 pelo recorte em que Jair Bolsonaro obteve mais votos que Lula entre brasileiros da região. A cobertura de centro relatou o mesmo temor, mas acrescentou dois elementos ausentes do outro relato: a preocupação do consulado em reduzir boca de urna e atrito entre eleitores de forças políticas diferentes, e o resultado de 2022 nos dois sentidos, com 81,2% para Jair Bolsonaro em Miami e vitória de Lula em três dos dez postos consulares, incluindo São Francisco, onde teve 60,1%. Veículos de direita não publicaram cobertura própria sobre o caso até o momento, embora o dado eleitoral em disputa recaia sobre um eleitorado que votou majoritariamente no campo conservador na última eleição presidencial.
O que ainda não se sabe é quantos eleitores efetivamente deixarão de comparecer, se haverá qualquer presença de agentes migratórios nas imediações dos postos no dia 4 de outubro e como o Brasil pretende operacionalizar a segurança que o Departamento de Estado se recusou a assumir fora dos consulados. Também não há informação sobre se os demais postos nos Estados Unidos adotaram critérios de proteção semelhantes ao do Queens, nem manifestação do ICE ou do governo americano sobre a hipótese de operações em dia de votação.