O referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, completa dez anos em meio a dúvidas persistentes da população britânica. Em junho de 2016, uma votação apertada definiu o rumo do país: 51,9% dos eleitores optaram pela saída do bloco europeu, contra 48,1% que preferiram a permanência. Uma década depois, parte considerável dos britânicos ainda se pergunta se a decisão foi acertada.
Uma pesquisa recente do instituto YouGov mostra o tamanho do arrependimento. Entre os entrevistados, 56% afirmam que a saída foi um erro e 62% a consideram um fracasso. O aniversário do referendo coincide com um momento de turbulência política: a matéria registra que a data chega um dia após o anúncio da renúncia do primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer, que permaneceu quase dois anos no poder.
A cobertura de centro, reproduzindo o despacho da agência AFP, detalha o quadro de instabilidade institucional com base em duas fontes acadêmicas. Sara Hobolt, professora da London School of Economics, afirma que o referendo criou duas novas tribos políticas, os partidários da saída, os Leavers, e os da permanência, os Remainers, com identidades mais fortes do que a lealdade aos partidos. Segundo ela, o episódio transformou uma questão antes distante em profunda divisão social e contribuiu para a fragmentação que leva o Reino Unido ao seu sétimo primeiro-ministro em pouco mais de uma década. Catherine Barnard, professora de Direito da União Europeia em Cambridge, avalia que ainda há um trauma profundo em torno do tema e que o eleitorado segue dividido.
Com a saída iminente de Starmer, quase todas as previsões apontam Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester e nome da ala mais à esquerda do Partido Trabalhista, como provável sucessor. Burnham não defendeu abertamente um retorno imediato à União Europeia, mas algumas declarações sugerem que considerou a saída um erro. Em maio, durante a campanha para uma eleição suplementar que venceu, disse ao canal ITV existir um argumento de longo prazo a favor do retorno ao bloco, embora tenha ressaltado que não sustentaria essa posição na disputa.
Veículos de esquerda enfatizaram exatamente esse ângulo: a maioria da população hoje enxerga o Brexit como erro e fracasso, os custos sociais da ruptura e a abertura de um debate sobre reaproximação com a Europa como caminho de reparação. A leitura associa a instabilidade institucional à polarização semeada pelo referendo. Já veículos de direita destacaram que o resultado de 2016 expressou a soberania popular nas urnas e que, como lembra a analista de Cambridge, os distritos que apoiaram a saída ainda pesam, o que recomenda cautela a quem fala em reverter a decisão. A cobertura de centro, factual e de agência, limitou-se a apresentar os números, as fontes acadêmicas e o cenário sucessório sem tomar partido.
O que ainda não se sabe é o desfecho dessa transição. Não está claro se Burnham, caso confirmado como primeiro-ministro, irá além de Starmer no esforço de aproximação com Bruxelas ou se será mais prudente diante de um eleitorado dividido. Também permanecem em aberto os efeitos econômicos concretos da última década de Brexit, pouco detalhados nas reportagens, e o calendário exato da sucessão no comando do governo britânico.