O candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, deu a largada de sua campanha eleitoral no domingo, 16 de agosto, com uma missa na Catedral Metropolitana de Goiânia seguida de carreata por cidades do Entorno do Distrito Federal. O roteiro começou em Águas Lindas de Goiás e passou por Santo Antônio do Descoberto, Novo Gama, Valparaíso e Cidade Ocidental, terminando à noite em Luziânia, onde o ex-governador discursou ao lado da mulher, Gracinha Caiado, candidata ao Senado pelo União Brasil, e do governador de Goiás, Daniel Vilela, do MDB, que disputa a reeleição.
O ato de estreia aconteceu sem o candidato a vice da chapa, Gilberto Kassab, que preside nacionalmente o PSD. A ausência ganhou peso político porque ocorreu dois dias depois de Kassab afirmar, em encontro com empresários em São Paulo, que os partidos do Centrão que não apoiam a candidatura do PSD estão na prática ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que a chance de Flávio Bolsonaro vencer a eleição seria zero. Caiado disse que o companheiro de chapa permaneceu em São Paulo para coordenar o lançamento das candidaturas do partido nos 27 estados e classificou a repercussão como exagero: afirmou que a declaração foi mal interpretada e que o dirigente apenas descreveu por que a maioria das siglas optou pela neutralidade.
A cobertura de centro relatou os fatos verificáveis do dia com paridade entre as versões. Registrou o itinerário da carreata, a justificativa apresentada para a ausência do candidato a vice, a resposta do próprio Kassab de que estava organizando a largada da campanha nos 27 estados e a reação de Flávio Bolsonaro em rede social, para quem o presidente do PSD teria entregado o jogo. Esses veículos também situaram o episódio na disputa medida pela pesquisa Genial/Quaest divulgada em 14 de agosto, que ouviu 2.004 eleitores em 120 municípios, tem margem de erro de dois pontos percentuais e registro no Tribunal Superior Eleitoral: Lula aparece com 38%, Flávio Bolsonaro com 31% e Caiado com 4% no primeiro turno.
Há convergência entre todos os lados sobre o núcleo dos fatos. Ninguém contesta que a carreata ocorreu sem o candidato a vice, que a fala sobre o Centrão foi dita na quinta-feira, 13, que Caiado publicou no sábado, 15, a promessa de não estar ao lado de Lula ou do PT em nenhum turno, e que a segurança pública é a bandeira central de sua campanha. Também é ponto comum que ele foi o único entre os principais presidenciáveis a não iniciar a campanha pelo Sudeste, e que seu plano de governo, apresentado na sexta-feira, reúne cerca de 40 propostas elaboradas com participação do ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta.
A divergência está na leitura do episódio. Veículos de esquerda enfatizaram o desgaste da oposição: descreveram o candidato como bombeiro da própria campanha, trataram a ausência do vice como sinal de racha na direita e apontaram contradição entre o discurso de devolver o país aos brasileiros e o memorando sobre minerais críticos assinado por Caiado com o governo dos Estados Unidos em março. Esses textos deram destaque à reação do senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, para quem a candidatura do PSD não seria para valer. Já veículos de direita enfatizaram a agenda e a biografia do candidato: apresentaram a escolha de cidades com histórico de violência como vitrine dos resultados de segurança atribuídos à sua gestão estadual, deram espaço à proposta de classificar facções criminosas como organizações terroristas e às promessas de confisco de bens de agressores de mulheres e de pena de 40 anos com cumprimento de 90%, além de reproduzirem sem contestação a afirmação de que ele nada tem a explicar sobre corrupção.
O que ainda não se sabe é se a divergência entre Caiado e Kassab terá desdobramento prático na chapa, já que os dois não apareceram juntos na estreia e não há agenda conjunta divulgada. Também segue em aberto se os partidos do Centrão manterão a neutralidade até o primeiro turno, qual o efeito das declarações sobre a campanha de Flávio Bolsonaro e se os resultados de segurança pública citados pelo candidato se sustentam diante das séries estatísticas de criminalidade do Entorno do Distrito Federal, que nenhum dos textos apresentou.