O Canadá anunciou na terça-feira, 25 de agosto de 2026, uma rodada de tarifas de retaliação sobre cerca de US$ 20 bilhões em importações anuais dos Estados Unidos. As alíquotas variam entre 15%, 25% e 50%, alcançam cerca de 700 produtos e passam a valer à 0h01 de 8 de setembro. A lista inclui aço, produtos lácteos, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, papel e eletrônicos. No mesmo anúncio, o ministro das Finanças, François-Philippe Champagne, apresentou um pacote de 7,5 bilhões de dólares canadenses, cerca de US$ 5,4 bilhões, para reforçar o caixa das empresas, ampliar benefícios de desemprego e criar um fundo de diversificação de mercados de exportação.
A retaliação responde a uma escalada iniciada na semana anterior. O primeiro-ministro Mark Carney rompeu as negociações comerciais na sexta-feira, 21 de agosto, ao considerar injustas as condições apresentadas por Washington. No sábado entraram em vigor sobretaxas americanas sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses, entre eles cimento, bebidas alcoólicas e tacos de hóquei, volume equivalente a 5,5% das exportações do Canadá aos Estados Unidos. Na segunda-feira, o presidente Donald Trump anunciou que pretende elevar para 50%, a partir de 1º de janeiro de 2027, as tarifas sobre automóveis, caminhões, autopeças e aço canadenses. Hoje, automóveis do país vizinho pagam 25% quando não empregam materiais americanos, e o aço já é taxado, em geral, em 50%.
Toda a cobertura analisada converge nos números e nas datas. Também converge no diagnóstico de assimetria: os Estados Unidos absorvem cerca de 70% das exportações canadenses, e o Canadá é o segundo maior parceiro comercial americano em bens, atrás do México. Há acordo ainda sobre o efeito imediato da disputa, com estimativas de analistas financeiros de recuo entre 0,3% e 0,6% do PIB canadense no curto prazo, e sobre o apoio interno à posição de Ottawa, com 76% dos entrevistados em pesquisa de fim de semana favoráveis à ruptura das negociações e 62% favoráveis à retaliação.
As ênfases se separam a partir daí. Veículos de direita concentraram o relato nas justificativas americanas e no risco assumido por Ottawa, registrando a acusação de Washington de que o Canadá pratica tratamento discriminatório contra bebidas alcoólicas, automóveis, laticínios, papel e itens agrícolas, e a versão do vice-presidente JD Vance de que as conversas fracassaram por exigências de última hora do lado canadense. A cobertura de centro deu mais espaço ao poder de barganha do Canadá e ao custo já imposto à economia americana: o boicote provincial a bebidas alcoólicas, em vigor em 11 das 13 províncias e territórios, derrubou 78% das exportações de vinho dos Estados Unidos ao país, perda de US$ 357 milhões, e a queda das viagens de canadenses custou cerca de C$ 3,3 bilhões em receitas no ano passado. Essa cobertura também detalhou o pacote de socorro e a decisão de poupar, por enquanto, energia e potássio. Nenhum veículo de esquerda registrou o episódio no conjunto analisado; o ângulo que esse campo tende a destacar, e que aparece de forma factual nos textos disponíveis, é o de que as novas tarifas americanas atingem desproporcionalmente pequenas e médias empresas canadenses, que dois em cada cinco entrevistados temem pelo próprio emprego e que a exigência americana sobre subsídios à cultura francófona e à rotulagem bilíngue toca política cultural interna.
O que ainda não se sabe é se energia, petróleo e potássio entrarão em rodadas seguintes. Champagne classificou a resposta como proporcional e direcionada, e o premiê de Ontário, Doug Ford, afirmou que uma sobretaxa de energia está sendo considerada, sem prazo ou alíquota definidos. Também não há definição sobre a revisão do Tratado de Livre Comércio da América do Norte, que Donald Trump se recusou a renovar no mês passado, nem sinal de retomada das negociações bilaterais. Não há, nas fontes disponíveis, estimativa do efeito das medidas sobre preços ao consumidor nos dois países.