O candidato ao governo de Santa Catarina Gelson Merísio, do PSB, transferiu R$ 1 milhão de recursos próprios para a própria campanha e passou a liderar o ranking de autodoações da eleição de 2026. O lançamento está registrado no DivulgaCandContas, sistema de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral, e era, até a manhã de 26 de agosto, a única receita declarada pela campanha. A prestação de contas havia sido recebida pela Justiça Eleitoral no dia 25 de agosto.
O valor chama atenção quando comparado à declaração de bens que o próprio candidato entregou à Justiça Eleitoral: R$ 652.953,78, cerca de R$ 347 mil a menos do que a quantia repassada à campanha. Entre os bens declarados estão uma casa em São Paulo avaliada em R$ 430 mil, participação de R$ 95 mil em uma empresa de materiais de construção registrada com o sobrenome do candidato e R$ 75,5 mil em quotas de capital de uma cooperativa de crédito, além de saldos em conta e aplicação financeira.
Em nota, a campanha afirmou que tanto a declaração patrimonial quanto a doação seguem as regras eleitorais. Segundo o texto, Merísio é casado há 38 anos sob regime de comunhão universal de bens, e o Código Civil impede a constituição de sociedade entre cônjuges nessa condição. Por isso, diz a nota, a empresa de administração do patrimônio familiar, criada em 2013, está apenas em nome da esposa e dos filhos, e a legislação eleitoral só exige a declaração de bens que estejam total ou parcialmente em nome do candidato. Sobre o aporte, a campanha sustenta tratar-se de receita corrente do ano vigente, já que Merísio é executivo de empresa privada com remuneração mensal na faixa dos R$ 300 mil.
As duas frentes de cobertura convergem nos números e na resposta da campanha, publicada integralmente pelos dois lados. Também convergem no ponto de partida do caso: o registro é oficial, público e foi o próprio sistema da Justiça Eleitoral que o tornou consultável.
A divergência está no ângulo. A cobertura de centro relatou o episódio ancorado na trajetória do candidato. Ex-deputado estadual, Merísio declarou voto em Jair Bolsonaro em 2018, perdeu a eleição daquele ano e, nos anos seguintes, afastou-se do bolsonarismo e aproximou-se do PT, até ser escolhido para encabeçar o palanque de Luiz Inácio Lula da Silva em um dos redutos mais conservadores do país. Essa cobertura situou o aporte num quadro nacional de autodoações, mencionando o repasse de R$ 533 mil feito por um primeiro suplente à chapa de Jaques Wagner na Bahia, e trouxe a pesquisa Quaest divulgada em 25 de agosto, que aponta o governador Jorginho Mello, do PL, com 50% das intenções de voto, João Rodrigues, do PSD, com 17%, e Merísio com 4%.
Veículos de direita enfatizaram o contraste patrimonial e o vínculo partidário. Registraram desde o início que o postulante é aliado de Luiz Inácio Lula da Silva e integra a coligação Coragem Para Mudar, formada por PSB, PDT, PSOL-Rede e pela federação que reúne PT, PV e PCdoB, e detalharam a diferença entre o valor doado e o patrimônio declarado ao Tribunal Superior Eleitoral. Essa cobertura acrescentou que o governador Jorginho Mello declarou autodoação de R$ 30 mil e que os demais concorrentes ao governo catarinense ainda não apresentaram prestações de contas com informações sobre doadores.
Até o fechamento desta análise, nenhum veículo de esquerda havia publicado matéria própria sobre o caso. O argumento disponível nesse campo é o da própria campanha, que sustenta a legalidade do aporte e atribui a diferença entre doação e patrimônio à estrutura societária familiar e à renda corrente do candidato.
O que ainda não se sabe é decisivo para medir o alcance do episódio. Nenhuma das reportagens traz manifestação do Tribunal Superior Eleitoral ou de especialista em direito eleitoral sobre se doação de recursos próprios acima do patrimônio declarado exige comprovação adicional de origem. Também não há informação sobre eventual diligência na prestação de contas, sobre o tamanho da empresa familiar registrada em nome da esposa e dos filhos, nem sobre como o R$ 1 milhão será distribuído entre as frentes da campanha.