O cineasta Walter Salles fez suas primeiras doações eleitorais do ciclo de 2026 na semana em que o Tribunal Superior Eleitoral consolidou as listas de candidaturas registradas para o pleito de outubro. Segundo a cobertura, ele transferiu R$ 50 mil à socióloga e professora Vilma Reis, candidata a deputada estadual na Bahia pelo PT, e R$ 50 mil ao engenheiro Abidan Henrique, vereador de Embu das Artes, em São Paulo, e candidato a uma vaga na Assembleia Legislativa paulista pelo PSB. As duas operações, R$ 100 mil somados, foram feitas na quinta-feira anterior à publicação das reportagens.
Salles integra uma das famílias mais ricas do país. Seu patrimônio é estimado em R$ 26,2 bilhões, com origem no grupo que criou o Unibanco, hoje parte do Itaú Unibanco, e na Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, líder mundial na produção de nióbio. Diretor do filme 'Ainda Estou Aqui', ele acumula histórico de contribuições a campanhas: nas quatro eleições anteriores destinou pouco mais de R$ 1,6 milhão a candidatos de diferentes partidos, sendo cerca de R$ 420 mil em 2024, R$ 1,1 milhão em 2022, R$ 90 mil em 2020 e R$ 8,5 mil em 2018.
A cobertura de centro tratou o outro lado do mesmo calendário eleitoral, o registro das candidaturas. Em Minas Gerais, 993 pessoas disputam 77 vagas de deputado estadual na Assembleia Legislativa e 753 concorrem a 53 cadeiras de deputado federal na Câmara dos Deputados, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral. O estado tem 16.377.659 eleitores aptos a votar, e a votação do primeiro turno está marcada para 4 de outubro, das 8h às 17h no horário de Brasília. Todos os registros aparecem com a situação de aguardando julgamento, e as listas ainda podem mudar por renúncia, falecimento ou impugnação de candidatura.
Os dois blocos de cobertura convergem no essencial: as doações existem, estão declaradas, têm valor e destinatários identificados, e ocorrem dentro do processo formal de registro conduzido pela Justiça Eleitoral. A divergência está no que cada lado escolhe iluminar. Veículos de direita enfatizaram o tamanho do patrimônio do doador e o destino partidário do dinheiro, colocando lado a lado a fortuna bilionária, a origem bancária e mineradora da família e o fato de os beneficiados serem candidatos do PT e do PSB. Nessa moldura, o histórico de R$ 1,6 milhão em quatro eleições vira padrão de intervenção política, e não gesto pontual. A cobertura de centro não tratou do financiamento e se restringiu ao serviço eleitoral, apresentando as listas sem destaque para qualquer legenda.
Nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio no conjunto analisado. A leitura de esquerda dos mesmos fatos tenderia a partir da legalidade e da rastreabilidade do ato: doação de pessoa física é declarada e fica sujeita ao escrutínio público na prestação de contas, ao contrário do financiamento empresarial, hoje vedado. O foco recairia sobre o perfil dos beneficiados, uma professora e socióloga que disputa vaga na Bahia e um vereador da região metropolitana de São Paulo, candidaturas sem a estrutura de campanha de mandatos consolidados, e sobre o custo elevado das eleições brasileiras, que empurra concorrentes populares para a dependência de apoio externo.
O que ainda não se sabe é relevante. Um dos textos anuncia quatro candidatos beneficiados, mas detalha apenas duas doações, sem nomear os demais nem informar valores. Não há manifestação do doador nem dos candidatos citados, não se sabe se novas contribuições virão até o fim da campanha, e o julgamento dos registros pela Justiça Eleitoral segue pendente, o que significa que a própria composição das listas divulgadas pode mudar antes de 4 de outubro.