A cantora Ana Castela se apresenta nesta quinta-feira, 27 de agosto, em São Fidélis, no interior do Rio de Janeiro, com cachê de R$ 850 mil bancado por emenda parlamentar destinada pela deputada federal Dani Cunha, do Partido Liberal (PL). O show ocorre dias depois de a artista aparecer sorrindo ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira, também do PL, na Festa do Peão de Barretos, em 23 de agosto, quando os dois fizeram com as mãos o número 22, legenda eleitoral do partido e número do candidato a presidente Flávio Bolsonaro.
Os relatos convergem no essencial. A foto foi feita em Barretos, circulou nas redes sociais e provocou reação imediata. A emenda que banca o cachê foi encaminhada ao município pela Comissão de Turismo, com valor total de R$ 1 milhão em recursos federais, e a cidade é administrada pelo prefeito José William, do mesmo partido. Procurada, Dani Cunha afirmou que o parlamentar destina a emenda ao município e que o prefeito decide o que fazer com ela. A Prefeitura de São Fidélis e a assessoria da cantora não responderam.
A cobertura de centro concentrou-se no rastro do dinheiro público e no contexto institucional. Registrou que Dani Cunha é filha de Eduardo Cunha, do Republicanos, suspeito de participar da destinação de emendas mesmo sem ter mandato, e que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, anulou em 23 de agosto emendas cuja indicação teve interferência de pessoas sem mandato eletivo. No mês anterior, o mesmo ministro determinou o bloqueio de R$ 6,15 milhões em bens do ex-presidente da Câmara dos Deputados, valor que a Polícia Federal aponta como repassado por ele a prefeituras por meio de emendas de comissão. Essa cobertura também anotou o porte do evento: uma cidade de cerca de 39 mil habitantes, segundo o IBGE, que espera pico de 4.000 pessoas no dia da apresentação principal.
Veículos de esquerda deram peso à reação de artistas e ao histórico do parlamentar. Relataram que Gloria Groove deixou de seguir Ana Castela no Instagram, movimento que já havia sido feito por Pabllo Vittar, e lembraram episódios em que Nikolas Ferreira se posicionou contra pautas da população LGBTQIA+, como o discurso de 2023 em que usou peruca na tribuna da Câmara dos Deputados e se apresentou como deputada Nicole, atitude criticada por parlamentares e entidades por ironizar mulheres trans.
Veículos de direita enfatizaram o outro lado da reação: a hostilidade dirigida à cantora. Destacaram a manifestação da atriz Luana Piovani, que usou expressão pejorativa ao comentar a foto em publicação nas redes sociais, e sustentaram que posar ao lado de um parlamentar não equivale a declaração formal de apoio político. Nessa leitura, o episódio revela menos sobre a posição da artista do que sobre a intolerância com quem é visto ao lado de figuras de determinado campo ideológico.
A divergência de substância está no dinheiro. Para a leitura de esquerda, o caso mostra recurso federal financiando cachê milionário em festa de padroeiro no momento em que a artista sinaliza alinhamento com o partido que indicou a emenda, e o nome de Eduardo Cunha agrava a suspeita sobre emendas de comissão. Para a leitura de direita, a emenda foi destinada regularmente ao município na categoria de turismo, a escolha do gasto cabe ao prefeito eleito e não há acusação formal de irregularidade na contratação.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há informação sobre como o show foi contratado, se por licitação ou por dispensa, nem sobre o critério que fixou o valor de R$ 850 mil. Também não está esclarecido se o repasse é alcançado pela decisão de Flávio Dino sobre emendas com interferência de pessoas sem mandato. A prefeitura, a assessoria da cantora e o deputado citado na foto não se manifestaram até a publicação das reportagens, e Ana Castela não comentou publicamente nem a imagem nem o contrato.