Duas semanas após o segundo turno, o Peru ainda não conhece oficialmente seu próximo presidente. Com 99,7% das atas apuradas, a candidata de direita Keiko Fujimori soma 50,1% dos votos, contra 49,9% do esquerdista Roberto Sánchez, uma diferença de aproximadamente 40 mil votos em mais de 19 milhões contabilizados. O segundo turno foi disputado em 7 de junho, e a proclamação do vencedor depende ainda da análise de cerca de 82 a 100 mil votos contestados pela Justiça Eleitoral.
O estopim da nova etapa do impasse foi o pedido de Sánchez para anular os votos emitidos no exterior. A cobertura de centro, da Folha de S.Paulo via agência AFP, relatou que o candidato apresentou ao Júri Nacional de Eleições um pedido de nulidade das eleições realizadas pelas 119 repartições consulares, medida que poderia afetar quase 300 mil sufrágios. Segundo o texto, Sánchez alegou que o procedimento foi gravemente afetado por modificações introduzidas a pedido do Poder Executivo, por meio da Chancelaria, mas o fez sem apresentar evidências. O candidato afirma que, excluindo os votos do exterior, manteria vantagem de cerca de 25 mil sufrágios sobre a rival.
Veículos de esquerda destacaram a substância da contestação: a denúncia de que as atas do segundo turno não foram digitalizadas da mesma forma que no primeiro, em abril, e de que houve problemas de custódia no voto consular. Numa imagem que sintetiza o argumento, Sánchez afirmou que não se joga uma partida de futebol e se mudam as regras no segundo tempo. Sob esse prisma, o forte descompasso entre o voto interno, apertado, e o externo, em que Keiko obteve 63,2% dos votos válidos, é apresentado como motivo legítimo para apuração rigorosa antes de qualquer proclamação.
Veículos de direita, como o InfoMoney, enfatizaram o outro lado. Para essa cobertura, a contestação é sobretudo uma recusa em aceitar a derrota: os tribunais eleitorais já haviam rejeitado recursos anteriores que tentavam invalidar votos em Lima e nos Estados Unidos, o Ministério das Relações Exteriores e os órgãos eleitorais afirmam que o processo correu na normalidade e missões internacionais de observação não relataram irregularidades capazes de comprometer o resultado. Esse enquadramento situa a provável vitória de Keiko numa guinada conservadora na América Latina, marcada pelo enfraquecimento da chamada onda rosa, em que economia e segurança pública impulsionariam candidaturas de direita.
A cobertura de centro ofereceu o pano de fundo da polarização. Keiko Fujimori, que disputa a Presidência pela quarta vez, é filha do falecido ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o país entre 1990 e 2000. Sánchez, em sua primeira campanha presidencial, é descrito como herdeiro político de Pedro Castillo, preso após uma tentativa fracassada de autogolpe em 2022. Uma delegação da União Europeia classificou o segundo turno como tranquilo e ordenado, ainda que num contexto de campanha fortemente polarizada.
O que ainda não se sabe é o desfecho. A Justiça Eleitoral peruana só divulgará o resultado definitivo após concluir a análise de todos os recursos e contestações, incluindo o pedido de anulação dos votos no exterior. As reportagens não detalham quais foram exatamente as modificações administrativas atribuídas à Chancelaria, nem o prazo para a decisão sobre cada impugnação. A expectativa predominante entre observadores é que a vantagem de Keiko se mantenha, já que boa parte das atas contestadas está em áreas onde ela teve desempenho superior. A proclamação deve ocorrer em julho, poucas semanas antes da posse presidencial marcada para 28 de julho, quando o vencedor substituirá o presidente interino José María Balcázar para um mandato de cinco anos.