Guo Degang, um dos comediantes mais conhecidos da China, passou a ser investigado pelas autoridades e teve apresentações canceladas depois de improvisar a letra de uma canção revolucionária associada ao Partido Comunista da China. O episódio ocorreu no fim de julho, durante um espetáculo em Wuhan, e só ganhou repercussão semanas depois, quando a denúncia chegou ao Departamento de Cultura e Turismo da cidade.
O artista trabalha com o crosstalk, formato tradicional de comédia chinesa baseado em diálogos rápidos e jogos de palavras, e cumpria turnê nacional para marcar os dez anos de sua companhia de teatro. Durante a apresentação, ele mexeu num verso de 'Tocando a minha amada pipa', música popularizada por 'Guerrilheiros da Ferrovia', filme dos anos 1950 sobre guerrilheiros comunistas que combateram tropas japonesas na Guerra Sino-Japonesa. No lugar de 'tudo está calmo no lago Weishan', cantou uma referência à Cidade Proibida, o complexo de palácios em Pequim que foi sede do poder imperial chinês por séculos, e interpretou o trecho em tom de humor.
A queixa apresentada ao Departamento de Cultura e Turismo de Wuhan afirma que o comediante distorceu e vulgarizou uma obra revolucionária clássica e violou padrões de moral e conduta pública. O órgão respondeu que o trecho improvisado não constava do material submetido previamente à aprovação e que a alteração é suspeita de violar o regulamento que rege as apresentações comerciais no país. A investigação segue em andamento, sem previsão anunciada para divulgação de uma conclusão. A canção tem peso simbólico: em 2019 foi incluída entre as cem obras escolhidas para as comemorações dos 70 anos da fundação da República Popular da China.
Os dois lados que cobriram o caso convergem nos fatos. A cobertura de centro relatou o episódio de forma descritiva, atribuindo cada acusação à denúncia e ao órgão municipal, citando o jornal estatal chinês como origem da apuração e registrando que o comediante foi procurado para comentar. Veículos de direita reproduziram os mesmos fatos e acrescentaram camadas: descreveram a divisão entre os usuários das redes sociais chinesas, com uma parte defendendo punição pela alteração de uma 'canção vermelha' e outra criticando o excesso de sensibilidade das autoridades, e situaram o caso num ambiente de controle crescente sobre manifestações artísticas, sustentado pela orientação ideológica do Partido Comunista. Essa cobertura também trouxe precedentes datados: em 2023, um humorista foi multado e proibido de se apresentar por tempo indeterminado após usar uma frase associada ao Exército de Libertação Popular numa história sobre cães de rua; no ano anterior, outro recebeu multa de 50 mil yuans por piadas sobre os confinamentos da pandemia em Xangai. Veículos de esquerda não haviam publicado nada sobre o caso até o fechamento desta reportagem, o que deixa sem cobertura o ângulo do impacto sobre a cadeia de trabalho da cultura chinesa.
O efeito prático já apareceu antes de qualquer decisão. Apresentações da turnê foram canceladas, e num teatro em Xi'an, onde o espetáculo estava marcado para esta semana, um funcionário informou que não há nova data nem previsão de retorno, com reembolso automático dos ingressos.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há prazo para o fim da investigação, não se conhece a sanção em discussão nem se ela pode incluir multa ou suspensão de apresentações, e o comediante não se pronunciou publicamente. Também não está claro quantos shows da turnê foram atingidos, se a companhia teatral responde solidariamente e se o material submetido à aprovação prévia será reavaliado para permitir a retomada.