A disputa pelo governo de Minas Gerais virou uma sucessão de reviravoltas depois que o Republicanos anunciou, em nota assinada pelas executivas estadual e nacional, que considerava encerrada a possibilidade de lançar o senador Cleitinho Azevedo como candidato ao Palácio Tiradentes. O comunicado saiu na manhã de 29 de julho e apontou a ausência do parlamentar na convenção estadual do dia 25 como um fato político objetivo, com consequências inevitáveis para a montagem das alianças. O texto afirmou ainda que uma candidatura exige a decisão firme de quem pretende disputá-la e que essa decisão nunca veio. Na mesma noite, em praça pública de Divinópolis, sua cidade natal, o senador convocou a imprensa e disse que era candidato, apresentando o ex-prefeito de Patos de Minas, Luís Eduardo Falcão, como vice.
Os pontos factuais são os mesmos em toda a cobertura reunida. O senador lidera as pesquisas de intenção de voto: o levantamento Genial/Quaest divulgado em 28 de julho o colocou com 35% no primeiro turno, 23 pontos à frente do segundo colocado, o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil, com 12%, além de vantagem em todos os cenários de segundo turno. Ele faltou à convenção do dia 25 por causa do luto pela morte do irmão mais novo, Matheus Azevedo, em 18 de julho, em decorrência de complicações de uma leucemia. Afirma ter enviado carta ao presidente nacional do partido, o deputado Marcos Pereira, explicando a ausência, e diz que havia combinado anunciar a candidatura até 5 de agosto. Há também um dado jurídico incontornável: o prazo de filiação partidária para quem disputa a eleição deste ano se encerrou em 4 de abril, de modo que trocar de legenda agora não permitiria ao senador concorrer por outra sigla no pleito de 4 de outubro.
A cobertura de centro relatou o episódio sobretudo como crise interna e negociação de bastidores. Descreveu a reunião de mais de cinco horas entre o senador, o presidente nacional da legenda e o dirigente estadual, no dia 30 de julho, encerrada sem definição; a pressão de candidatos a deputado do partido em Minas, que ameaçaram retirar seus nomes e esvaziar as chapas proporcionais caso o senador fosse barrado; e a ameaça pública do irmão do parlamentar, ex-prefeito de Divinópolis, de abandonar a disputa por uma vaga na Câmara. Essa cobertura também registrou a contradição entre o discurso do dirigente estadual na convenção, quando afirmou que a decisão do senador seria respeitada sem qualquer pressão, e o teor da nota divulgada quatro dias depois.
Veículos de direita enfatizaram outro eixo: o descompasso entre a liderança nas pesquisas e a decisão da cúpula partidária, o peso do palanque mineiro para a candidatura presidencial do campo conservador e a leitura, difundida pelo entorno do parlamentar, de que o sistema partidário trabalha contra um nome popular. Nessa cobertura ganharam destaque os vídeos publicados pelo senador nas redes sociais: um deles, feito com inteligência artificial, recria o pai e o irmão mortos incentivando-o a seguir; outro, no domingo anterior à decisão, associa sua trajetória à história bíblica de Davi e Golias. Veículos de esquerda praticamente não cobriram o caso no material reunido, o que deixa a disputa sem o contraponto crítico que costuma acompanhar tanto o uso de recursos religiosos em pré-campanha quanto a recriação digital de familiares mortos.
O desfecho seguiu instável. Em 1º de agosto, interlocutores afirmavam que a direção havia reconsiderado e confirmaria a candidatura. Na segunda-feira, 3 de agosto, após reunião em Brasília, o senador gravou um vídeo ao lado do presidente do partido dizendo que não estava bem para fazer campanha e que deixava a corrida. No dia seguinte, interrompeu a convenção nacional da legenda para pedir novamente a vaga, atribuindo a mudança a um momento de vulnerabilidade e a um chamado espiritual. O dirigente respondeu com repreensão pública, disse que seria irresponsável entregar o estado a quem muda de opinião em minutos e citou o risco de uma desistência às vésperas do pleito.
O que ainda não se sabe é se o partido cederá a legenda, quem apoiará caso mantenha o veto e se o senador deixará a sigla, movimento que hoje não lhe permitiria concorrer por outra legenda nesta eleição. Também não há definição pública sobre a composição final da chapa majoritária mineira nem sobre a data de uma decisão formal das executivas.