O empresário Pablo Marçal foi lançado candidato à Presidência da República pelo PRTB no último fim de semana, no limite do prazo para o registro de candidaturas, por meio de uma liminar que autorizou seu retorno ao partido. A entrada de última hora obrigou as duas principais campanhas de 2026 a refazerem contas e transferiu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a decisão sobre quem estará, de fato, na disputa pelo Palácio do Planalto.
O ponto que toda a cobertura reconhece é a situação jurídica do candidato. Marçal está inelegível por oito anos, contados a partir das eleições de 2024, o que estende a punição até 2032. A condenação, imposta pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, tem como base abuso de poder econômico, captação e gastos ilícitos de recursos e uso indevido dos meios de comunicação social durante a campanha à Prefeitura de São Paulo, quando ele promoveu campeonatos que estimulavam colaboradores a produzir e distribuir cortes de vídeo nas redes sociais. Junto com a inelegibilidade, foi mantida multa de 420 mil reais. Em julho deste ano veio uma terceira condenação relacionada ao mesmo pleito municipal e, em 5 de agosto, o tribunal paulista rejeitou por unanimidade os embargos apresentados pela defesa. Há ainda um obstáculo anterior ao mérito: a lei eleitoral exige filiação partidária pelo menos seis meses antes da votação, prazo que se encerrou em 4 de abril, e a liminar que devolveu Marçal ao PRTB terá de ser analisada pela Justiça Eleitoral.
A cobertura de centro relatou o cálculo das campanhas com distanciamento. De um lado, integrantes do PT descrevem duas leituras concorrentes: a primeira vê a candidatura como fator de pulverização, capaz de atrair eleitores indecisos e retirar votos do senador Flávio Bolsonaro, o que favoreceria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as pesquisas; a segunda considera o impacto limitado, por avaliar que o ex-coach perdeu credibilidade depois dos ataques e da divulgação de um laudo falso contra Guilherme Boulos nas eleições municipais de 2024. Nos bastidores petistas circula também a hipótese de que Marçal tenha entrado para atuar em conjunto com o senador, funcionando como uma espécie de testa de ferro, tese sustentada por declarações em que ele afirmou que não criaria problemas para Flávio Bolsonaro. Do outro lado, integrantes da campanha do senador afirmam não ver com maus olhos a novidade, dizem enxergar pontos em comum entre as propostas e trabalham com a expectativa de que o registro seja indeferido.
Veículos de direita enfatizaram o comportamento do tribunal. A apuração dessa cobertura mostra ministros do TSE sinalizando, ainda antes do julgamento, que não devem conceder o registro por ausência de fato novo e por entender que a defesa não apresentou provas contra as acusações de abuso de poder econômico. O mesmo enquadramento destaca que a relatoria caberá a uma ministra indicada pelo presidente em 2025 e apadrinhada por um ministro do Supremo Tribunal Federal, e dá espaço à fala de um candidato adversário que classifica Marçal como personagem folclórico e o descreve como antigo consultor de marketing do senador. Veículos de esquerda não integraram este conjunto de matérias, e o ângulo que essa cobertura costuma privilegiar, o de proteção das regras eleitorais diante do poder econômico, aparece aqui apenas de forma indireta, pela ênfase na condenação já confirmada em segunda instância.
Parte da cobertura ampliou o quadro para além do episódio. Uma das análises mostra que a campanha presidencial do PT chega a 2026 com 12 candidaturas próprias a governos estaduais, contra 13 em 2022, 18 em 2006 e 25 em 2002, e passou a apoiar aliados de PSD, MDB, União Brasil, PP, PSB e PDT para montar palanques competitivos, inclusive em legendas que se declararam neutras na disputa nacional. No Rio Grande do Sul, o partido não terá candidato próprio ao governo pela primeira vez desde a redemocratização.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há data marcada para o julgamento do registro, apenas a expectativa de integrantes da Corte de decidir até a primeira semana de setembro para não gerar instabilidade no pleito. Também não está definido como a Justiça Eleitoral tratará a liminar de refiliação diante do prazo legal vencido, nem qual será o comportamento de Marçal caso o pedido seja negado. E nenhuma das reportagens apresenta medição de intenção de voto que permita dimensionar, em números, o efeito da candidatura sobre os dois favoritos.