Após a eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026, diante da Noruega, a derrota rapidamente ultrapassou o campo esportivo e virou munição política. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que acompanharam o jogo juntos dos Estados Unidos, foram às redes sociais associar o resultado ao governo do Partido dos Trabalhadores. 'Desde que o PT chegou ao poder, em 2002, o Brasil nunca mais ganhou nada, nem no futebol nem para os brasileiros. Perdemos a Copa, mas vamos ganhar o Brasil', escreveu Flávio em publicação no X, ao lado de uma foto segurando a bandeira nacional. Eduardo seguiu a mesma linha e divulgou uma montagem em que o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, aparece segurando a taça ao lado de jogadores.
A investida não ficou restrita aos irmãos. O deputado Sóstenes Cavalcante, do PL do Rio de Janeiro, ironizou que o pênalti decisivo teria ocorrido aos 13 minutos, numa alusão ao número eleitoral do PT. Já o senador Carlos Portinho chamou a equipe de 'time do Gilmar', referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, relator de ações sobre o comando da Confederação Brasileira de Futebol. O ex-presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, chegou a tentar se manter no cargo por meio de liminares, mas acabou desistindo após as ações judiciais.
Os veículos que cobriram o episódio convergem nos fatos centrais: quem publicou o quê, o teor das mensagens e o contexto eleitoral, com a corrida presidencial de 2026 no horizonte. A cobertura de centro relatou os acontecimentos de forma factual, listando as manifestações dos aliados do PL sem endossá-las. A reportagem analítica da imprensa também trouxe a leitura de especialistas: o cientista político Marco Teixeira afirmou que 'a polarização está tão rasa que até a Copa não escapa' e lembrou que o Brasil também não conquistou o título quando Jair Bolsonaro ocupava a Presidência, um contraponto direto à narrativa de que as derrotas seriam culpa do PT.
As divergências de enquadramento aparecem no destaque e no tom. Veículos de direita enfatizaram as falas dos pré-candidatos e o dado de pesquisa que encurta a distância entre Flávio e Lula, a última rodada da AtlasIntel apontava Lula com 48,8% e Flávio com 42,3%, reproduzindo a associação entre a seca de títulos e os governos petistas. Numa leitura de esquerda, a mesma sequência de fatos é descrita como oportunismo eleitoral: uma tentativa de faturar politicamente sobre a frustração coletiva, distorcendo a realidade ao ignorar que fracassos esportivos ocorreram sob governos de espectros diversos. Teixeira destacou ainda que, nesta Copa, o verde e amarelo havia voltado a ser assimilado como torcida, e não como marca ideológica, e que as publicações após a eliminação tentam reatar símbolos nacionais a disputas partidárias.
O que ainda não se sabe é como o governo Lula e o PT vão responder às provocações, já que nenhuma das matérias trouxe a reação do outro lado, nem qual será o efeito prático, se houver, dessa apropriação do tema esportivo sobre a intenção de voto às vésperas de 2026.